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Direito Penal · VUNESP · 2023

Questão comentada de Direito Penal

Caio e Tício são sócios em uma sociedade empresária. Caio decide matar Tício e, sabedor que Tício é a primeira pessoa a chegar ao local de trabalho comum pela manhã, planeja uma emboscada. Caio aguarda Tício e, assim que vislumbra um vulto, que pensa ser o sócio adentrando a empresa, dispara um projétil de arma de fogo. Posteriormente, verifica-se que o vulto se tratava de um sequestrador que abordara Tício na porta da empresa e que, no momento do disparo, mantinha Tício refém, sob arma de fogo. O sequestrador morre em razão do disparo. Nessas circunstâncias, é correto afirmar que:

Gabarito: A

Aqui o ponto central é a relação de causalidade e o alcance do dolo. Caio queria matar Tício e disparou contra aquilo que acreditou ser a vítima. Só que, no mundo real, quem foi atingido foi o sequestrador que mantinha Tício refém. Em Direito Penal, isso é tratado como erro na execução ou aberratio ictus, previsto no art. 73 do Código Penal: o agente responde como se tivesse atingido a pessoa visada, ainda que o resultado recaia sobre terceiro. Em outras palavras, a lei olha para a intenção inicial de Caio e “transporta” a imputação para o resultado ocorrido. Por isso, a morte do sequestrador é imputada a Caio como se tivesse sido contra Tício. A lógica é simples: ele agiu com animus necandi dirigido à vítima pretendida, e o erro de pontaria não apaga esse dolo. Se houver também ofensa à pessoa pretendida, pode haver análise de concurso formal, mas aqui o fato relevante é que o homicídio do terceiro entra na conta do agente. Não há legítima defesa de terceiro em favor de Caio, porque ele não tinha ciência da agressão injusta ao refém e não agiu para defendê-lo. Legítima defesa exige consciência da agressão e vontade de repelir a injusta agressão atual ou iminente. Também não cabe exercício regular de direito, porque atirar em alguém não é um direito do cidadão, muito menos dentro dessa situação. E não existe aqui exclusão da culpabilidade por “falta de reprovação social” - Caio continuou praticando uma tentativa de homicídio, só que errou o alvo. Assim, o gabarito A está correto porque o caso é de aberratio ictus: Caio responde pela morte do sequestrador como se o atentado tivesse sido contra Tício, nos termos do art. 73 do CP.

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