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Direito Penal · FGV · 2023

Questão comentada de Direito Penal

Ana é servidora pública e passou por severa crise pessoal, em decorrência do nascimento de sua filha, portadora de grave doença genética. Como o tratamento da filha era extremamente custoso, Ana passou a levar para casa, com intenção de economizar recursos para custear o tratamento de sua filha, pequenos materiais como papel higiênico, café, canetas, itens subtraídos da repartição pública. Ao descobrir os fatos, Rodolfo, superior imediato de Ana, e conhecedor do drama pessoal de sua subordinada, deixa de instaurar o procedimento administrativo cabível. Nesse caso, é certo que

Gabarito: E

Aqui a lógica é bem clássica: Ana, sendo servidora pública, subtraiu bens móveis da repartição em proveito próprio ou alheio, ainda que a motivação tenha sido pessoalmente comovente. Isso configura peculato, na forma do art. 312 do Código Penal. O fato de ela ter pegado materiais aparentemente pequenos, como papel higiênico, café e canetas, não tira a tipicidade do crime; em regra, o valor reduzido pode até influenciar a resposta penal em casos específicos, mas não apaga automaticamente o delito. Já Rodolfo, ao descobrir a infração e deixar de instaurar o procedimento administrativo cabível por complacência com a situação dramática da subordinada, pratica conduta típica de condescendência criminosa, prevista no art. 320 do CP. Esse crime ocorre justamente quando o superior, por indulgência, deixa de responsabilizar o subordinado que cometeu infração no exercício do cargo. É o famoso "passar a mão na cabeça" que o Direito Penal não perdoa. Perceba que não há prevaricação, porque Rodolfo não agiu para satisfazer interesse ou sentimento pessoal em sentido amplo, mas sim por tolerância indevida com a funcionária. Também não há peculato culposo, pois Ana não concorreu culposamente para crime de outra pessoa: ela mesma subtraiu os bens de forma dolosa. Por isso, o gabarito correto é a alternativa E.

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