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Direito Penal · CESPE/CEBRASPE · 2022

Questão comentada de Direito Penal

Maria, de 35 anos de idade, compareceu a uma delegacia de polícia noticiando ao policial plantonista que havia sido abusada sexualmente por um médico-cirurgião renomado, o qual teria manipulado o órgão genital dela enquanto ela ainda se encontrava sob efeito de anestésico após ter realizado mamoplastia. Diante da gravidade da denúncia, o policial verificou se havia anotações criminais contra o noticiado e não localizou nenhum registro de ocorrência nesse sentido. Então, indagou à noticiante se ela tinha certeza do que estava afirmando, pois se tratava de uma acusação muito séria e ela poderia ter-se confundido em função do efeito anestésico. Desconfortável com a indagação feita, a noticiante pediu que fosse chamada uma policial do sexo feminino para atendê-la. Assim feito, Maria narrou o fato vivenciado à policial, a qual, por sua vez, considerou conveniente chamar a autoridade policial para avaliar se o fato deveria ser efetivamente registrado, diante de quem, mais uma vez, a noticiante relatou o abuso sofrido. Com relação a essa situação hipotética, assinale a opção correta, considerando as normas de direito penal e os estudos críticos criminológicos.

Gabarito: E

A situação descreve um problema clássico de atendimento à vítima: em vez de acolher a notícia de crime, o policial tratou o relato com desconfiança e ainda fez a vítima repetir a história várias vezes para pessoas diferentes. Isso é um exemplo bem claro de revitimização, também chamada de vitimização secundária, quando a própria atuação institucional aumenta o sofrimento de quem já foi vítima. No caso, a postura adequada era receber a notitia criminis com cautela e encaminhar a apuração, sem expor Maria a perguntas insinuantes ou repetição desnecessária do relato. A suspeita de falsidade não autoriza transformar a vítima em investigada desde o primeiro minuto, muito menos fazê-la reviver o fato várias vezes como se estivesse prestando uma prova oral em série. A doutrina criminológica crítica aponta que a vítima pode sofrer não só a agressão inicial, mas também danos causados por instituições de controle social, especialmente quando há descrédito, constrangimento ou burocratização excessiva do atendimento. Em casos de violência sexual, esse cuidado deve ser ainda maior, porque a exposição repetida costuma agravar o trauma. Por isso, a alternativa correta é a que identifica a revitimização: Maria foi questionada sobre a credibilidade do seu relato e obrigada a narrar o abuso a diferentes profissionais da delegacia. A conduta policial, nesse ponto, foi inadequada e violou uma lógica mínima de proteção e acolhimento da vítima.

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