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Direito Constitucional · VUNESP · 2023

Questão comentada de Direito Constitucional

Leia o texto com que Carlos Ayres Britto inicia sua obra “Teoria da Constituição”, ao tratar do Poder Constituinte: “O meu filho Marcel tinha cinco anos de idade, quando travou comigo o seguinte diálogo: – Meu pai, é verdade que Deus tudo pode? – É verdade, sim, meu filho. Deus tudo pode. – E se Deus quiser morrer? – Bem, aí você me obriga a recompor a ideia. Deus tudo pode, é certo, menos deixar de tudo poder. Logo, Deus tem que permanecer vivo, porque somente assim Ele vai prosseguir sendo Aquele que tudo pode.” Após essa reflexão, defende o autor que

Gabarito: B

A ideia central do texto é separar duas coisas que a prova adora misturar: o Poder Constituinte originário e o poder de reforma. O originário é o poder que cria a Constituição do zero, inaugura uma nova ordem jurídica e não fica preso a regras anteriores. Ele é dito inicial, autônomo, ilimitado juridicamente e incondicionado, porque não nasce de uma norma superior do próprio ordenamento que ele vai criar. Já o poder reformador é outro personagem da história: ele existe porque a própria Constituição o autorizou. Então ele não cria uma nova ordem jurídica, apenas altera a Constituição dentro dos limites que ela mesma impôs, como quórum, procedimento e cláusulas pétreas. Em outras palavras, o reformador trabalha com a Constituição já pronta; o originário é quem levanta a casa do alicerce ao telhado. Por isso, a letra B está correta ao dizer que o Poder Constituinte originário inaugura o ordenamento jurídico e cria o Estado ao fazer a Constituição, enquanto o poder reformador não se confunde com ele. Essa é a linha clássica da doutrina constitucional, compatível com a noção de que a Constituição organiza o Estado e define as regras do jogo para sua própria mudança. A sacada do texto de Carlos Ayres Britto é justamente essa: o poder constituinte originário é poderoso, mas não pode se anular como poder constituinte, porque, se deixasse de existir como poder criador, deixaria de ser o que é. É a velha lógica de que ele pode tudo, menos deixar de ser o fundamento da própria ordem que institui.

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