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Direito Constitucional · VUNESP · 2023

Questão comentada de Direito Constitucional

“Pouco antes de o sol nascer na Praça 14 Bis, no Centro de São Paulo, dois moradores de rua começam a recolher cobertores e outros objetos que estão ali na calçada que também serve de morada para eles. A temperatura mínima na madrugada desta quarta-feira chegou a sete graus, mas a sensação era de mais frio, numa atmosfera gelada intensificada pelo concreto. Sob um cobertor, um deles explicou: ‘Estamos recolhendo tudo para que a GCM [Guarda Civil Metropolitana] não leve embora’, disse, sem querer se identificar. ‘Eles passam aqui cedo e o que a gente não segura, eles levam’. Os moradores tentam se proteger do indefensável: a guarda municipal passa, quase diariamente, nas regiões onde vivem os moradores de rua para levar colchonetes, cobertores e barracas. Até documentos são levados, eles denunciam.” (Marina Rossi. Morador de rua em São Paulo: “Se eu tirar o casaco, eles levam embora”. El País Brasil, 16.06.2016. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/06/15/ politica/1466018275_327623.html) Considerando o excerto apresentado, nos termos da Constituição Federal, é correto afirmar que

Gabarito: A

A Constituição Federal não protege apenas direitos “de escritório”; ela também protege quem está em situação de rua, com toda a vulnerabilidade que isso traz. No caso, a retirada de cobertores, colchonetes, barracas e até documentos por agentes públicos atinge diretamente a dignidade da pessoa humana, que é fundamento da República (art. 1º, III, CF). Em termos simples: não faz sentido o Estado “cuidar” da ordem retirando justamente o mínimo necessário para a sobrevivência de alguém ao relento. Além disso, a atuação estatal precisa respeitar os direitos fundamentais, inclusive a vedação de tratamento degradante e a proteção à integridade física e moral da pessoa. A população em situação de rua não perde direitos por estar na rua. Pelo contrário: é justamente por estar em condição de maior fragilidade que merece proteção reforçada. Por isso, o gabarito é a letra A. O fato narrado revela afronta à dignidade da pessoa humana, pois a conduta descrita contribui para agravar a exposição ao frio e à privação de meios básicos de subsistência. A jurisprudência e a doutrina constitucional tratam a dignidade como vetor interpretativo central: quando há colisão entre atuação administrativa e proteção existencial mínima, a dignidade deve orientar a solução. As demais alternativas tentam colocar a discussão em temas que não são o núcleo do problema. Aqui não se trata de liberdade de expressão, nem de “garantia de ir e vir” pela Administração, e também não existe uma autorização genérica para retirar bens pessoais sob o pretexto de política preventiva. Em prova, quando aparecer pessoa em situação de rua + ação estatal agressiva, pense primeiro em dignidade e proteção contra tratamento desumano.

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