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Direito Constitucional · FGV · 2023

Questão comentada de Direito Constitucional

Joana, Juíza de Direito, ao julgar determinada causa em que as partes, a partir da interpretação do mesmo comando constitucional, alcançavam normas com sentidos distintos, buscou explicar o sentido que encontrara afirmando que o intérprete, ao transitar do texto para a norma, desenvolve uma atividade intelectiva de índole argumentativa e decisória. Nessa atividade, o intérprete deve resolver as conflitualidades intrínsecas da norma constitucional, que opõem grandezas argumentativamente relevantes, passíveis de influir no delineamento de uma pluralidade de significados a serem atribuídos aos significantes interpretados. Cabe ao intérprete decidir qual desses significados deve preponderar, conforme as singularidades do caso concreto em que serão aplicados. A partir da concepção de Joana, é correto afirmar que

Gabarito: C

A questão trata da interpretação constitucional como atividade de escolha argumentativa. Em Direito Constitucional, especialmente na leitura de autores como Friedrich Muller, Konrad Hesse e a doutrina da concretização, o intérprete não se limita a “ler” o texto: ele transforma enunciados abertos em norma aplicável, ponderando sentidos possíveis conforme o caso concreto. É por isso que, em muitas situações, a Constituição exige uma decisão argumentada, e não uma resposta mecânica. O enunciado descreve justamente essa passagem do texto para a norma, com seleção de um significado entre vários possíveis, levando em conta as tensões internas do próprio comando constitucional. Como a Constituição tem natureza aberta, principiológica e programática em vários pontos, seus comandos são especialmente propensos a esse tipo de operação interpretativa. Ou seja: quanto mais a Constituição traz valores, princípios e cláusulas abertas, mais espaço existe para esse trabalho de concretização. Por isso, a alternativa C está correta ao afirmar que a inicialidade sistêmica dos comandos constitucionais e a pretensão de permanência os tornam particularmente suscetíveis às operações descritas por Joana. A Constituição nasce como base do sistema jurídico e quer durar no tempo, mas o mundo muda, os conflitos mudam e o intérprete precisa atualizar o sentido sem romper com o texto. A FGV costuma cobrar essa ideia com linguagem sofisticada: interpretação constitucional não é só subsunção, é também argumentação, ponderação e concretização. Então, quando a questão fala em “resolver conflitualidades intrínsecas” e escolher, no caso concreto, o significado que deve prevalecer, ela está apontando para essa lógica de abertura e permanência da Constituição.

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