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Direito Constitucional · FGV · 2022

Questão comentada de Direito Constitucional

No ano de 2015, João, então secretário de Saúde do Estado Beta, aplicou e desviou ilegalmente verba pública, razão pela qual, após regular processo administrativo disciplinar, foi demitido. Em 2021, João foi aprovado na prova objetiva do concurso público para o cargo de médico no Estado Beta, mas foi eliminado do certame, em razão do disposto em um artigo do Estatuto dos Servidores Públicos do Estado Beta que estabelece que “não poderá retornar ao serviço público estadual o servidor que for demitido ou destituído do cargo em comissão por aplicação irregular de dinheiros públicos”. Inconformado, João impetrou mandado de segurança, com o escopo de anular o ato administrativo que o excluiu do concurso. Ao ofertar parecer na qualidade de órgão interveniente, o promotor de justiça deve observar que, de acordo com a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, a citada norma do Estatuto dos Servidores Públicos é:

Gabarito: B

A Constituição protege o administrado contra punições estatais desmedidas, e isso vale também no direito administrativo sancionador. O art. 5º, XLVII, da CF, ao vedar penas de caráter perpétuo, expressa uma ideia que o STF aplica para afastar sanções administrativas eternas ou com efeito permanente, porque o Estado pode punir, mas não pode “aposentar” a pessoa da vida pública para sempre. Aqui, a norma do Estatuto estadual cria exatamente esse efeito: quem foi demitido por desvio de verba pública nunca mais poderia voltar ao serviço público estadual, sem limite temporal. Isso viola a proporcionalidade, especialmente na sua face de proibição do excesso. O ponto importante é que o ilícito administrativo não fica “fora do alcance” da Constituição. O STF entende que sanções administrativas também devem respeitar legalidade, razoabilidade, proporcionalidade e as limitações constitucionais aos poderes punitivos do Estado. Em outras palavras: moralidade administrativa não é licença para punição perpétua com roupagem de zelo público. Por isso, a norma é inconstitucional. Ela transforma uma consequência disciplinar em uma exclusão definitiva e automática do serviço público estadual, sem individualização e sem prazo razoável, o que contraria a vedação de penas de caráter perpétuo e o princípio da proporcionalidade. É exatamente esse o raciocínio que sustenta o gabarito B.

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