← Questões de Direito Constitucional

Direito Constitucional · FGV · 2022

Questão comentada de Direito Constitucional

O promotor de justiça João, do Ministério Público do Estado Alfa, que não responde nem nunca respondeu a processo administrativo disciplinar, acabou de se remover de uma Promotoria de Família e assumiu a titularidade de uma Promotoria Criminal. Após dois meses de exercício no novo órgão de execução, João foi surpreendido com publicação no Diário Oficial de ato do Procurador-Geral de Justiça (PGJ) designando as promotoras Joana e Maria para exercerem as funções processuais que são originariamente afetas ao órgão de execução de que João é titular, em determinada ação penal de repercussão social, que envolve a maior organização criminosa mapeada do Estado. A decisão da chefia institucional ocorreu por meio de ato excepcional e fundamentado, que foi submetido e aprovado previamente pelo Conselho Superior do Ministério Público. O ato foi embasado na larga experiência prática e teórica das promotoras Joana e Maria, haja vista que estão lotadas em Promotoria Criminal há quinze anos e possuem doutorado em combate a organizações criminosas. A citada designação feita pelo PGJ está lastreada em dispositivo da Lei Orgânica do Ministério Público do Estado Alfa que tem a seguinte redação: “Compete ao Procurador-Geral de Justiça designar membros do Ministério Público para, por ato excepcional e fundamentado, exercer as funções processuais afetas a outro membro da instituição, submetendo sua decisão previamente ao Conselho Superior do Ministério Público”. Após estudar as medidas legais possíveis para impugnar o ato do PGJ, o promotor de justiça João verificou que, de acordo com jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, o ato:

Gabarito: C

A questão trata do chamado princípio do promotor natural, que funciona como uma proteção contra escolhas casuísticas dentro do Ministério Público. Em outras palavras, o membro do MP não pode ser simplesmente trocado ou “escolhido a dedo” para atuar em um caso, porque isso poderia afetar a independência da instituição e a confiança da sociedade na acusação. O STF admite que a chefia institucional faça designações excepcionais, mas isso precisa respeitar critérios objetivos e limites constitucionais. A ideia central é: a substituição ou designação não pode virar instrumento para manipular o acusador do caso. Por isso, quando a norma estadual permite ao PGJ designar membro para atuar em função de outro, o tema exige leitura conforme a Constituição, e não aceitação irrestrita da regra como se ela pudesse valer de qualquer jeito. No caso narrado, o ato do PGJ não depende só de uma previsão legal genérica. Pela jurisprudência do STF, a designação excepcional deve observar a garantia da inamovibilidade e os princípios da independência funcional e do promotor natural, além de exigir a concordância do membro designado e a deliberação do Conselho Superior, justamente para evitar interferência indevida na atuação natural do órgão. Por isso o gabarito é a letra C: o ato fica viciado se não respeitar essas travas constitucionais. A banca costuma cobrar essa ideia com linguagem de “excepcional e fundamentado”, mas o ponto decisivo é perceber que a autorização legal estadual não basta sozinha se a interpretação não for ajustada à Constituição.

Continue treinando

Questões relacionadas