Considere a seguinte afirmação de Aristóteles: “Temos pois definido o justo e o injusto. Após distingui-los assim um do outro, é evidente que a ação justa é intermediária entre o agir injustamente e o ser vítima da injustiça; pois um deles é ter demais e o outro é ter demasiado pouco.” (Aristóteles. Ética a Nicômaco. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, p. 329.) De efeito, é correto concluir que para Aristóteles a justiça deve sempre ser entendida como
- A)produto da legalidade, pois o homem probo é o homem justo.
Errada, porque para Aristóteles a justiça não se reduz à legalidade, já que o foco da passagem é a justiça como medida e proporção, não apenas o cumprimento formal da lei.
- B)espécie de meio termo.
Certa, porque a justiça aristotélica é entendida como um meio termo entre excessos, exatamente como o trecho destaca ao falar em excesso e falta.
- C)relação de igualdade aritmética.
Errada, porque igualdade aritmética não traduz bem a justiça aristotélica, que em muitos casos é proporcional e não simplesmente igual para todos.
- D)ação natural imutável.
Errada, porque a justiça em Aristóteles não é uma ação natural imutável; ela é uma virtude ética ligada ao equilíbrio e à deliberação humana.
Gabarito: B
Para Aristóteles, a justiça não é um sentimento solto nem uma regra automática: ela aparece como um ponto de equilíbrio. Na Ética a Nicômaco, ele liga a ideia de justiça ao “meio termo”, isto é, à posição intermediária entre dois excessos. No trecho da questão, isso fica claro quando ele diz que agir justamente é estar entre “ter demais” e “ter demasiado pouco”. Em linguagem de concurso, pense assim: a injustiça puxa para o excesso ou para a falta; a justiça, ao contrário, corrige esse desvio e busca a medida adequada. Por isso, a justiça aristotélica não se resume a “cumprir a lei” de forma mecânica, embora a lei tenha importância na vida da polis. O núcleo da ideia aqui é ético e proporcional. É justamente por isso que o gabarito é a letra B. Aristóteles trabalha com a noção de virtude como meio termo relativo à nós, e a justiça entra nessa lógica. Não é igualdade aritmética em qualquer caso, porque a distribuição pode exigir critérios proporcionais, e não uma simples divisão igual para todos. Então, se a questão fala em “intermediária” entre agir injustamente e ser vítima da injustiça, o sinal amarelo já acende para a noção de meio termo. É a cara do pensamento aristotélico: nem excesso, nem falta, mas medida.