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Direitos Humanos · FGV · 2023

Questão comentada de Direitos Humanos

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua (Pnad Contínua), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no segundo trimestre de 2022, enquanto os homens não negros (= brancos + amarelos + indígenas receberam a remuneração mensal média de R$ 3.708,00, as mulheres não negras (= brancas + amarelas + indígenas) receberam R$ 2.774,00, os homens negros (= negros + pardos) receberam R$ 2.142,00 e as mulheres negras (= negras + pardas), R$ 1.715,00. Com base nesses dados, é correto afirmar que:

Gabarito: E

A questão trabalha uma ideia muito importante em Direitos Humanos: desigualdade salarial não é fruto apenas de escolhas individuais, mas pode revelar discriminações estruturais que se acumulam. Quando gênero e raça se combinam, a vulnerabilidade aumenta, e isso é exatamente o que se chama de discriminação múltipla ou agravada. Em outras palavras: não é só ser mulher ou só ser negra; a sobreposição desses fatores costuma produzir uma desvantagem maior no mercado de trabalho. No sistema internacional de proteção, a igualdade material exige mais do que dizer que todos são iguais na lei. O Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC) e a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW) reforçam a obrigação estatal de enfrentar desigualdades reais, inclusive no trabalho e na remuneração. Já no sistema interamericano, a Convenção Interamericana contra o Racismo, a Discriminação Racial e Formas Correlatas de Intolerância reconhece expressamente formas de discriminação interseccionais, permitindo enxergar melhor situações como a da questão. Por isso, o enunciado aponta corretamente que a diferença salarial pode ser compreendida a partir da discriminação múltipla ou agravada. Os números do IBGE mostram um padrão consistente de desvantagem para mulheres, especialmente mulheres negras, o que vai além de uma explicação simplista baseada apenas em mérito, esforço individual ou horas trabalhadas. Em prova da FGV, desconfie de alternativas que tentam naturalizar desigualdades como se fossem escolhas pessoais ou resultado automático da igualdade formal. Em Direitos Humanos, a lógica é outra: quando a realidade mostra exclusão persistente, o Direito entra em cena para corrigir o jogo, e não para fingir que ele já começou equilibrado.

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