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Direito Processual Penal · FGV · 2023

Questão comentada de Direito Processual Penal

Em 2018, João, após ingerir cinco latas de cerveja, deitou-se em sua cama e rapidamente adormeceu. Contudo, por volta das 04h30, o seu enteado de 9 anos de idade o acordou afirmando que estava com fome. João, pessoa hipossuficiente economicamente, não dispunha de gás canalizado, de forma que o agente acendeu uma pequena fogueira e cozinhou macarrão para o seu enteado. Em seguida, enquanto a criança se alimentava e ainda sob o efeito de álcool, João voltou a dormir. Ato continuo, a criança acabou por esbarrar na fogueira e, em razão das chamas, velo a falecer. A Delegacia de Policia da localidade deflagrou uma investigação sobre os fatos e João, no relatório final, acabou por ser indiciado pelo crime de homicídio culposo. Contudo, o Ministério Público, em junho de 2019, no último dia do prazo legal, manifestou-se no sentido do arquivamento do inquérito policial, ao argumento de que João sofreu de forma tão grave em razão dos eventos que a sanção penal se tornou desnecessária. Nesse cenário, considerando as disposições do Código de Processo Penal e a jurisprudência dominante dos Tribunais Superiores, é correto afirmar que, em havendo a promoção de arquivamento do inquérito policial:

Gabarito: C

No inquérito policial, o Ministério Público é o dono da ação penal pública e, por isso, também é quem avalia se há ou não base para denunciar. Se ele pede o arquivamento, o juiz não pode simplesmente substituir o MP e mandar oferecer denúncia, porque isso violaria a titularidade da ação penal e a lógica do sistema acusatório. Pelo art. 28 do CPP, na redação aplicável ao caso, se o juiz discordar da promoção de arquivamento, ele remete os autos ao Procurador-Geral de Justiça. Aí, o chefe do Ministério Público pode insistir no arquivamento ou designar outro membro para oferecer a denúncia, conforme a organização interna da instituição. O juiz, portanto, não dá a palavra final sobre o mérito do arquivamento. É por isso que a alternativa C está correta: ela retrata exatamente esse mecanismo de controle interno do arquivamento pelo próprio Ministério Público, com atuação do Procurador-Geral de Justiça. A jurisprudência dos Tribunais Superiores é firme no sentido de que o magistrado não pode impor o oferecimento da denúncia, sob pena de ferir a independência funcional do MP e a separação de funções no processo penal. No caso narrado, o argumento do MP foi até bem peculiar, porque falou em desnecessidade da sanção penal por conta do sofrimento do investigado. Mas, goste ou não do fundamento, a lógica procedimental segue a mesma: arquivamento promovido pelo MP, controle pelo órgão superior do próprio MP e não pelo juiz.

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