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Direito Processual Penal · FGV · 2023

Questão comentada de Direito Processual Penal

“O instituto dos precedentes judiciais tem sido compreendido, antes de tudo como decisões judiciais em caso concreto que trate de questão jurídica e não apenas de simples subsunção dos atos aos textos legais.” (in Precedentes Judiciais no Processo Penal, Danyelle Galvão, Editora JusPodivm, 2022). O emblemático habeas corpus 769.783 da lavra da Defensoria Pública levou a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça a firmar precedente, relativo à extensão dos efeitos de sua decisão libertária, fundamentado na comprovação da violação sistemática de direitos do paciente por investigações que obtinham indício de autoria exclusivamente de reconhecimento por fotografia. Os reconhecimentos acarretaram mais de sessenta ações penais, estando o paciente preso e com dificuldades para exercer materialmente a ampla defesa. O provimento jurisdicional unânime da Seção Criminal do Tribunal Superior teve o seguinte alcance:

Gabarito: B

Aqui o ponto central é simples: nem todo habeas corpus fica preso ao caso concreto como se fosse uma ilha. Em situações excepcionais, o STJ pode reconhecer que a ilegalidade é tão repetida e sistêmica que a decisão serve como precedente para orientar outros processos com a mesma dinâmica fática e probatória. Foi exatamente isso que aconteceu no caso do reconhecimento fotográfico usado de forma isolada e em série contra o paciente. O Superior Tribunal de Justiça entendeu que o problema não era um erro pontual, mas uma prática investigativa reiterada, com forte impacto na liberdade e na defesa do acusado. Por isso, além de conceder a ordem no caso examinado, a Corte determinou que os demais juízos analisassem se os processos em curso reproduziam exatamente a mesma situação ilegal. Nos feitos já transitados em julgado, a análise seria feita pelos juízos da execução, porque a ilegalidade pode irradiar efeitos para além do processo originário. Isso conversa com a lógica dos precedentes judiciais: quando o tribunal fixa uma tese a partir de uma questão jurídica relevante, os demais órgãos jurisdicionais devem observá-la, especialmente em hipóteses idênticas. Não significa sair absolvendo todo mundo automaticamente, mas sim impor um filtro de compatibilidade entre o novo caso e o precedente firmado. Por isso o gabarito é a letra B: ela descreve corretamente a concessão da ordem no caso concreto e a extensão dos efeitos para orientar os demais processos com a mesma dinâmica probatória, sem transformar o precedente em uma absolvição genérica e indiscriminada.

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