← Questões de Direito Processual Penal

Direito Processual Penal · FGV · 2022

Questão comentada de Direito Processual Penal

Jurandir, casado com Maria e pai de Josué, de apenas 06 meses de idade, angustiado com a situação financeira da família após mais de sete meses desempregado, aceita convite de traficante da localidade onde reside para vender uma carga de entorpecentes e, com isso, receber R$500,00. Durante seu primeiro dia vendendo drogas, é abordado por policiais militares e preso em flagrante delito, sendo imediatamente apresentado à Autoridade Policial que, em observância ao Art. 6º, inciso V, do CPP, passa a ouvi-lo, insistindo para Jurandir falar tudo o que ocorrera. Em relação à atuação do Delegado de Polícia, assinale a afirmativa correta.

Gabarito: C

A questão gira em torno de um clássico do processo penal: o direito ao silêncio e a vedação à autoincriminação, o famoso nemo tenetur se detegere. Em português claro, ninguém pode ser forçado a produzir prova contra si mesmo, nem por conversa insistente, nem por pressão disfarçada de formalidade. Isso vale também na fase policial, inclusive quando a pessoa está presa em flagrante. O art. 5º, LXIII, da Constituição garante ao preso o direito de permanecer calado, além da assistência da família e de advogado. Por isso, a autoridade policial não pode simplesmente “insistir” para o autuado contar tudo, como se o silêncio fosse uma afronta ao Estado. O delegado deve informar o direito ao silêncio, e qualquer interrogatório deve respeitar essa garantia. Na prática, o erro está em confundir a previsão do art. 6º, V, do CPP com uma autorização para arrancar confissão. Esse dispositivo permite ouvir o indiciado, mas sempre em harmonia com a Constituição. Lei infraconstitucional não pode atropelar garantia fundamental. Se houver violação ao direito de não se autoincriminar, a prova obtida dessa forma tende a ser ilícita, por ofensa ao art. 5º, LVI e LXIII, da CF. Por isso, o gabarito é a letra C: o delegado agiu em desconformidade com a Constituição porque deveria informar Jurandir sobre seu direito ao silêncio, e a prova produzida sob essa violação não pode ser tratada como válida. Prisão em flagrante não elimina garantia fundamental; preso em flagrante também tem direitos, e não perde o botão do silêncio na entrada da delegacia.

Continue treinando

Questões relacionadas