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Direito Processual Civil · FGV · 2022

Questão comentada de Direito Processual Civil

No exercício seguinte ao ano em que um Estado-membro editou uma lei que quadruplicava o percentual da alíquota do IPVA, bem como obedecida a anterioridade nonagesimal, a autoridade tributária editou o ato administrativo referente à sua exação, com base na novel legislação. Inconformado com os novos valores do imposto, um contribuinte impetrou mandado de segurança em que pleiteava a anulação do ato administrativo voltado para a cobrança, estribando-se no argumento de que a lei na qual ele se baseava ofendia princípios constitucionais, como a razoabilidade e a igualdade tributária. Tomando contato com a petição inicial do writ, o magistrado procedeu ao juízo positivo de admissibilidade da ação e deferiu o requerimento de tutela provisória, consubstanciada na suspensão da exigibilidade do crédito tributário. Na sequência, o ente federativo interpôs agravo de instrumento para impugnar a decisão concessiva da medida liminar, tendo o órgão fracionário do tribunal para o qual foi distribuído o recurso lhe negado provimento. Nesse ínterim, vieram aos autos do mandado de segurança as informações da autoridade impetrada, a peça impugnativa estatal e a manifestação ministerial conclusiva, após o que o juiz proferiu sentença, em que concedia a segurança vindicada. Sem que tivesse sido interposto recurso de apelação por qualquer legitimado, os autos subiram ao tribunal por força do reexame necessário, tendo o órgão fracionário, então, confirmado a sentença de piso, por entender que o ato administrativo questionado e a lei que lhe servira de arrimo ofendiam normas constitucionais tributárias. Intimado do acórdão proferido em sede de reexame necessário, o Estado manejou embargos de declaração para fins de pré-questionamento e, diante de sua rejeição, interpôs recurso extraordinário, alegando que o órgão julgador, por não ter submetido a questão constitucional ao plenário do tribunal, violou a garantia do devido processo legal. Nesse quadro, assinale a afirmativa correta.

Gabarito: E

Essa questão mistura mandado de segurança, controle de constitucionalidade e técnica recursal. No mandado de segurança, é perfeitamente possível discutir a ilegalidade ou inconstitucionalidade do ato administrativo concreto, desde que não se esteja pedindo a impugnação abstrata de lei em tese. Aqui, o contribuinte atacou o ato de cobrança do IPVA, e não a lei, em abstrato, então a via eleita não era inadequada. O ponto mais interessante está no recurso extraordinário. O Estado alegou violação ao devido processo legal porque a turma julgadora não levou a matéria ao plenário. Só que, se a suposta ofensa à Constituição for apenas reflexa, isto é, depender antes da análise de norma infraconstitucional, o STF não deve conhecer do RE como questão constitucional direta. Nessa situação, entra em cena o art. 1.033 do CPC: se o STF entender que a ofensa constitucional é reflexa e que a controvérsia é, na verdade, infraconstitucional, deve adotar providências para viabilizar a remessa ao STJ, com a conversão do recurso extraordinário em especial, quando cabível. É exatamente por isso que a alternativa E está correta. Em resumo: o caso não era de barração da inicial, nem de incidente de inconstitucionalidade obrigatório na forma como a banca sugeriu. O detalhe decisivo foi recursal: o STF, percebendo que o tema é infraconstitucional disfarçado de constitucional, pode encaminhar a discussão ao STJ. Concurso adora esse truque de trocar a placa do caminho, mas o destino continua sendo o direito infraconstitucional.

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