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Direito Administrativo · FGV · 2023

Questão comentada de Direito Administrativo

1º cenário: João, após três anos de estudo, é aprovado em um concurso público, tomando posse no cargo almejado. Durante seis meses, o servidor público praticou, diuturnamente, todos os atos atrelados ao feixe de atribuições definido em lei para a sua função. Nada obstante, a Administração Pública, após a observância do contraditório e da ampla defesa, verifica a ocorrência de vícios insanáveis no concurso público, dando azo à anulação deste, com os consectários daí decorrentes (anulação das nomeações e posses). 2º cenário: Guilherme, particular, especializado em mergulhos em alto-mar, em um dia de fortes chuvas no Município do Rio de Janeiro, visualiza duas senhoras ilhadas em um determinado local, na iminência de serem levadas pela correnteza gerada por força do alagamento das ruas. O particular, então, verificando que o Corpo de Bombeiros não estava presente, resolve ir ao local e logra êxito em salvar as mulheres. Nesse contexto, considerando os cenários delimitados, é correto afirmar que:

Gabarito: C

A questão mistura dois clássicos de Direito Administrativo: agente de fato e teoria da aparência. No caso de João, embora o concurso depois tenha sido anulado, ele já tinha tomado posse e exerceu a função de modo ostensivo, como se servidor fosse. Nessa hipótese, ele é agente público de fato putativo: a investidura é viciada, mas, para proteger a segurança jurídica e a confiança dos administrados, os atos praticados enquanto atuava aparentemente com legitimidade são preservados. Isso é a lógica da teoria da aparência, muito cobrada em prova. Já Guilherme entrou em cena por necessidade, num contexto urgente, sem a presença do Corpo de Bombeiros, para salvar vidas. Aqui não há roupa institucional nem cargo público: trata-se de particular que atua excepcionalmente em situação de emergência, sendo classificado como agente de fato necessário. A atuação dele pode ser reconhecida juridicamente pela utilidade e pela urgência do ato, mas não porque ele tenha assumido uma função pública regular. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela acerta ao dizer que João é agente de fato putativo e que seus atos devem ser convalidados à luz da teoria da aparência, além de enquadrar Guilherme como agente de fato necessário. Esse é o ponto central: a anulação do concurso atinge a investidura, mas não apaga automaticamente os atos já praticados sob aparência de legitimidade.

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