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Direito Administrativo · CONSULPLAN · 2022

Questão comentada de Direito Administrativo

A teoria da imprevisão (théorie de l’imprévision) foi consagrada pelo Conselho de Estado francês no julgamento do caso “Gaz de Bordeaux”, de 30/03/1916. Naquele caso, a concessionária pretendia a revisão do contrato administrativo de produção de gás, pois o preço do carbono, matéria-prima necessária à produção do gás, foi elevado excessivamente por conta da I Guerra Mundial. O Conselho de Estado estabeleceu as condições de aplicação da teoria da imprevisão e garantiu o direito à revisão do contrato. (LONG, M; WEIL, P.; BRAIBANT, G.; DEVOLVÉ, P.; GENEVOIS, B. Les grands arrêts de la j jurisprudence administrative. 16. ed. Paris: Dalloz, 2007. p. 189-197. Apud OLIVEIRA, Rafael Carvalho de Rezende. Curso de direito administrativo. 9. ed. Rio de Janeiro: Método, 2021. p. 1.017.) Ciente do exposto e valendo-se também das pertinentes disposições legais e jurisprudenciais acerca da teoria da imprevisão, aplicáveis ao direito público brasileiro, assinale a afirmativa integralmente correta.

Gabarito: A

A teoria da imprevisão nasce para evitar que o contrato vire uma armadilha quando acontece um fato extraordinário, imprevisível e alheio à vontade das partes, que desequilibra fortemente a equação econômico-financeira. No direito administrativo, ela conversa diretamente com a ideia de manutenção do equilíbrio contratual, especialmente nos contratos de execução continuada ou diferida. Em vez de deixar uma parte “afundar” sozinha com o choque inesperado, o ordenamento admite a revisão para recompor a justiça contratual. No Brasil, essa lógica aparece na Lei 14.133/2021 e também na sistemática anterior da Lei 8.666/1993, com instrumentos de recomposição do equilíbrio econômico-financeiro, inclusive diante de fatos imprevisíveis ou previsíveis de consequências incalculáveis. A doutrina e a jurisprudência reconhecem que, em contratos administrativos, o interesse público não autoriza o Estado a ignorar a quebra anormal da equação contratual. O precedente clássico francês do caso Gaz de Bordeaux é justamente a base histórica dessa construção. Por isso, a alternativa correta é a que afirma que a teoria da imprevisão tem como objetivo o reestabelecimento do equilíbrio contratual entre os contratantes. Essa é a essência do instituto: não é dar vantagem a alguém, mas recolocar o contrato nos trilhos quando um evento extraordinário bagunça a conta. As demais opções erram ao negar a aplicação no direito público, ao colocar a força obrigatória acima da recomposição do equilíbrio, ao restringir indevidamente o pressuposto da revisão ou ao inventar previsão expressa na Constituição de 1988.

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