Observe a interação entre aluno surdo do 1º ano do Ensino Médio e o Intérprete de Libras: 1. Professor: hoje iremos tratar sobre o problema da camada de ozônio. 2. Intérprete: HOJE AULA SOBRE PROBLEMA C-A-M-A-D-A-D-EO-Z-O-N-I-O. 3. Surdo: C-A-M-A-D-A D-E O-Z-O-N-I-O NÃO SABER 4. Intérprete: POLUIÇÃO/ MUNDO/ ACONTECER/ BURACO/ CÉU 5. Surdo: POLUIÇÃO/ MUNDO/COMO? 6. Intérprete: FÁBRICA/ FUMAÇA/ TAMBÉM/ FOGO/ FLORESTA/ SUJO/ CÉU 7. Surdo: PROBLEMA/ C-A-M-A-D-A/ O-Z-O-N-IO/ IGUAL/POLUIÇÃO/ ABRIR/ BURACO/ CÉU. 8. Intérprete: OK Assinale a opção que apresenta estratégia de interpretação para a produção de sentido, realizada pelo Intérprete de Libras, na quarta linha da amostra de interação entre o profissional e o aluno surdo.
- A)Realiza a interpretação simultânea da fala do professor sobre o tema “camada de ozônio”.
Errada, porque não se trata de simples interpretação simultânea da fala, mas de uma estratégia de construção de sentido para tornar o conteúdo compreensível ao aluno.
- B)O intérprete não consegue expressar o que seria a poluição no mundo.
Errada, porque o intérprete não fracassa na comunicação; ele consegue sim produzir compreensão ao reorganizar o conceito em sinais mais acessíveis.
- C)O intérprete consegue compreender o que seja o problema da “poluição”, produzindo um sentido para essa expressão.
Errada, porque a questão não aponta apenas compreensão de “poluição”, e sim o uso de referências linguísticas para contextualizar o conceito apresentado.
- D)Busca referenciais em seu sistema linguístico, para contextualizar uma possível significação da “camada de ozônio”.
Certa, porque o intérprete recorre a elementos do seu repertório linguístico para dar forma e sentido ao conceito abstrato de “camada de ozônio”.
- E)Anuncia sobre o tema “camada de ozônio”, do qual iria tratar em sua aula.
Errada, porque o intérprete não está apenas anunciando o tema da aula, mas interpretando e reconstruindo o conteúdo para o aluno surdo.
Gabarito: D
Na interpretação de Libras, nem sempre basta fazer uma troca palavra por palavra. Muitas vezes o intérprete precisa transformar a fala em uma imagem mais compreensível para o surdo, usando recursos da própria língua de sinais para construir sentido. É aquela hora em que o intérprete pensa: “como eu faço essa ideia caber de forma clara em Libras?”. No caso da “camada de ozônio”, o professor fala um conceito escolar, abstrato para o aluno naquele momento. O intérprete, então, não fica preso ao termo técnico em si e busca elementos mais concretos e visuais, como “poluição”, “buraco”, “céu”, “fumaça”, “fábrica”. Isso ajuda o estudante a organizar a informação e acompanhar o conteúdo. Essa é uma estratégia de produção de sentido, muito ligada à mediação linguística e cultural na interpretação. Por isso o gabarito é a letra D: o intérprete busca referenciais no próprio sistema linguístico para contextualizar uma possível significação de “camada de ozônio”. Ele não está apenas repetindo sinais, mas reconstruindo o sentido para aquele interlocutor naquele contexto. Em interpretação, fidelidade não é copiar forma, é preservar sentido. Esse tipo de raciocínio conversa com a ideia central da atuação do tradutor-intérprete de Libras prevista na Lei 12.319/2010 e também com a concepção de interpretação como prática de mediação de sentidos entre línguas e culturas diferentes. Aqui, a chave é justamente essa: adaptar para comunicar, sem perder o conteúdo.