Em 2011, a Prefeitura de São Paulo assegurou, por uma portaria, a permanência de suas escolas municipais para surdos, transformando-as em escolas bilíngues para surdos. Segundo o documento Currículo da Cidade de Língua Portuguesa para Surdos de 2019, na proposição de organização de um currículo bilíngue é importante a articulação entre as propostas da Libras e da Língua Portuguesa. A esse respeito, assinale a afirmativa correta.
- A)Libras e Língua Portuguesa caminham de forma harmônica, mas a Libras antecipa os conhecimentos essenciais para que os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento sejam também alcançados em Língua Portuguesa.
Correta: expressa a articulação harmônica entre as línguas e reconhece a Libras como base para a aprendizagem do português.
- B)Nessa proposição curricular, a Língua Portuguesa para surdos está a serviço da Libras, com bases fundamentais de conhecimentos linguísticos.
Errada: inverte a lógica bilíngue ao colocar a Língua Portuguesa a serviço da Libras.
- C)Nesta proposição curricular, a Língua Brasileira de Sinais está a serviço da Língua Portuguesa para surdos, com bases fundamentais de conhecimentos linguísticos.
Errada: também inverte a relação entre as línguas, subordinando a Libras ao português.
- D)Para aquisição da Língua Portuguesa na modalidade escrita para surdos, é necessário a apropriação de um conteúdo em uma segunda língua, no caso a Libras.
Errada: a aquisição do português escrito não exige apropriação prévia de Libras como conteúdo, mas sim seu uso como língua de mediação.
- E)Libras e Língua Portuguesa caminham de forma harmônica, mas a Língua Portuguesa antecipa os conhecimentos essenciais para que os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento sejam também alcançados em Língua Brasileira de Sinais.
Errada: repete a inversão comum ao afirmar que o português antecede os conhecimentos essenciais em Libras.
Gabarito: A
A educação de surdos, no modelo bilíngue, parte da ideia de que a Libras é a primeira língua da pessoa surda e deve ser a base de interação, acesso ao conhecimento e construção da aprendizagem. A Língua Portuguesa aparece como segunda língua, especialmente na modalidade escrita, articulada com a Libras, e não como substituta dela. Em outras palavras: primeiro a criança surda acessa o mundo pela língua que ela percebe visualmente, depois amplia esse repertório com o português escrito. No caso dos currículos bilíngues, a organização pedagógica precisa fazer as duas línguas conversarem, mas sem inverter a hierarquia de acesso. A Libras não é um apêndice decorativo: ela é o ponto de partida, porque garante a compreensão dos conceitos e a participação efetiva do estudante surdo. Já o português entra como língua de escolarização e letramento, construído a partir dessa base em Libras. É exatamente isso que a alternativa A afirma ao dizer que as duas línguas caminham de forma harmônica, mas que a Libras antecipa os conhecimentos essenciais para que os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento também sejam alcançados em Língua Portuguesa. Essa formulação está alinhada ao entendimento do currículo bilíngue para surdos adotado em políticas educacionais e com a Lei 10.436/2002, regulamentada pelo Decreto 5.626/2005, que reconhecem a Libras como língua e estruturam a educação bilíngue. O erro mais clássico aqui é trocar a ordem das coisas e colocar o português como centro. Em educação de surdos, a lógica não é adaptar a Libras ao português, mas garantir a Libras como base linguística para que o português escrito possa ser aprendido com sentido.