Analise o seguinte depoimento de uma pessoa surda sobre o seu passado, quando houve encontro de seus pares, pois encontro surdo-surdo representa a possibilidade de troca de significados, de constituição de identidades. “[....] aquilo no momento de meu encontro com os outros surdos era o igual que eu queria, tinha a comunicação que eu queria. Aquilo que identificava eles identificava a mim também e fazia ser eu mesma, igual.” (PERLIN, 1998, p. 54) Acerca da identidade surda híbrida, é correto afirmar que
- A)é característica de pessoas oriundas de famílias ouvintes que passaram por um processo de transição entre estar num contexto da perspectiva ouvinte, sem contato com a identidade surda, e que, a partir do momento em que ocorre esse contato, passam a rejeitar a representação ouvinte.
Errada, porque descreve mais a passagem de uma pessoa ouvinte para uma identificação surda, e não a noção de identidade surda híbrida.
- B)são pessoas que, mesmo passando pelo processo de des-ouvintização, ficam com sequelas da representação ouvinte, evidenciando a sua identidade surda em construção, portanto o contato é tardio, com a comunidade surda.
Errada, pois fala em 'des-ouvintização' e contato tardio, mas a descrição não corresponde com precisão à definição de identidade híbrida usada por Perlin.
- C)nesta identidade surda, observa-se a representação estereotipada da surdez ou o desconhecimento da surdez como questão cultural, pois as pessoas apresentam dificuldade de comunicação se expressando, por vezes, de forma incompreensível; a vida é determinada pela perspectiva ouvinte.
Errada, porque trata de estereótipos, desconhecimento cultural e determinação pela perspectiva ouvinte, o que se aproxima de outras formas de identidade surda, não da híbrida.
- D)nesta identidade surda, as pessoas desconhecem ou rejeitam a presença do intérprete de Libras, utilizam aparelhos auriculares, fazendo uso da língua oral, e apresentam dificuldades em se reconhecer e se aceitar como surdas.
Errada, porque retrata negação da Libras, uso de aparelhos e dificuldade de aceitação, aspectos ligados a conflito identitário, não à identidade surda híbrida.
- E)é característica de pessoas com surdez adquirida que, inicialmente, participaram da cultura ouvinte, utilizando uma língua oral para se comunicar, mas que, com o tempo, imergem no contexto da surdez, como pessoas surdas; elas participam da comunidade e da cultura surdas e demandam direitos atinentes aos surdos como intérpretes, legenda, entre outros.
Certa, porque descreve a pessoa com surdez adquirida que viveu inicialmente na cultura ouvinte e depois passa a integrar a comunidade e a cultura surdas, demandando acessibilidade.
Gabarito: E
A identidade surda híbrida aparece quando a pessoa surda transitou por dois mundos: primeiro, viveu muito tempo sob a lógica da cultura ouvinte, geralmente usando a língua oral e tentando se adaptar a ela; depois, ao entrar em contato com a comunidade surda, passa a reconhecer a Libras, a cultura surda e a própria surdez como parte da sua identidade. Em outras palavras, não é uma identidade “pronta” desde cedo: ela vai sendo construída no meio desse vai e vem entre oralidade e sinalização. Na formulação de Perlin, essa identidade costuma aparecer em pessoas com surdez adquirida ou com contato tardio com outros surdos, que inicialmente participaram do universo ouvinte e depois mergulham na experiência surda. Por isso, continuam trazendo marcas da cultura anterior, mas passam a se inserir na comunidade surda e a reivindicar seus direitos linguísticos e de acessibilidade. É exatamente isso que a alternativa E descreve: alguém que veio da cultura ouvinte, usou língua oral, depois entrou na cultura surda e passou a demandar intérprete de Libras, legenda e outras formas de acessibilidade. A questão está alinhada ao entendimento doutrinário sobre identidades surdas de Perlin, especialmente a ideia de trânsito entre referências culturais diferentes. Resumo prático para prova: identidade híbrida = trajetória de passagem entre oralidade e cultura surda, com reconstrução identitária no contato com a comunidade surda.