Analise o depoimento de uma professora que se tornou surda, com diagnóstico de surdez acentuada bilateral neurossensorial, após a gravidez da sua segunda filha. “Desde que me tornei surda, há seis anos, vivo a duplicidade de culturas bem como a condição de “estrangeira” nas duas situações. Para os surdos, ao mesmo tempo que sou surda, sou uma ex-ouvinte; para os ouvintes, ao mesmo tempo que sou surda, causo “estranhamento” por ser uma ex-ouvinte, e ter domínio total da Língua Portuguesa oral e escrita e de ambas as culturas, de ouvinte e surda. (...) Eu assumo minha (...) identidade surda e recuso o rótulo de deficiente.” GUILHERME, Paulo. Surdos são tratados como incapazes, diz professora-doutora. G1 de São Paulo. 2011. Assinale a opção que apresenta o tipo de identidade surda dessa professora.
- A)Flutuante.
Errada, porque a identidade flutuante se liga ao sujeito que oscila entre referências surdas e ouvintes, sem se fixar em uma vivência claramente híbrida de quem se tornou surdo depois.
- B)Embaçada.
Errada, porque a identidade embaçada indica conflito e indefinição sobre pertencer ou não ao grupo surdo, o que não é o foco do depoimento.
- C)Diáspora.
Errada, porque a identidade de diáspora se relaciona ao deslocamento e à experiência de viver fora do centro da cultura surda, não ao caso de aquisição da surdez após já ser ouvinte.
- D)Híbrida.
Certa, porque a professora era ouvinte e passou a ser surda, convivendo com as culturas ouvinte e surda ao mesmo tempo.
- E)Intermediária.
Errada, porque a identidade intermediária não descreve, com precisão, a condição de quem transita entre dois repertórios culturais após a perda auditiva.
Gabarito: D
A questão cobra as identidades surdas, um tema clássico na educação de surdos. Em linhas simples, a identidade surda pode aparecer de formas diferentes conforme a história de vida da pessoa, o contato com a comunidade surda, a língua que domina e a forma como ela se percebe socialmente. No campo doutrinário, autores como Carlos Skliar e, na classificação mais usada em concursos, Gladis Perlin, ajudam a diferenciar perfis como identidade flutuante, híbrida, embaçada, diáspora e intermediária. No caso narrado, a professora ficou surda depois de já ter constituído sua vida como ouvinte. Ela continua dominando plenamente a língua oral e escrita, mas passa a viver entre duas culturas, a de ouvintes e a de surdos. Esse é o ponto-chave: ela não nasceu surda nem construiu sua identidade apenas dentro da comunidade surda, mas passou a transitar entre os dois mundos, com pertencimento parcial aos dois lados. Isso caracteriza a identidade surda híbrida, que é justamente a identidade de quem era ouvinte e se tornou surdo posteriormente, carregando marcas das duas experiências. A própria fala do enunciado reforça isso ao mencionar “duplicidade de culturas”, “estrangeira nas duas situações” e a recusa do rótulo de deficiente, o que mostra uma afirmação identitária surda, mas marcada pela passagem entre culturas. Por isso, o gabarito é a letra D. Em concursos, quando aparecer a ideia de alguém que perdeu a audição depois de já ter vivenciado intensamente o mundo ouvinte, pense em identidade híbrida. É a clássica vida em dois idiomas culturais, sem pedir licença para nenhum dos dois.