O trabalho de Stokoe (1960) deu início a vários estudos da Língua de Sinais. Pesquisas foram realizadas em diversos países, a fim de demonstrar o status linguístico das línguas de sinais, desmistificando concepções inadequadas. Analise o trecho de uma das concepções que foi apresentada por Karnopp (1994) e Quadros (1997): “(...) Fazendo- se um exame dos dicionários das línguas de sinais de alguns países, comprova-se que nem todas as pessoas surdas fazem referência a um determinado referente usando o mesmo sinal. Woodward compara 872 sinais da língua de sinais americana e francesa e conclui que, embora estas duas línguas sejam relacionadas historicamente, apenas 26,5% dos sinais são idênticos.” Sobre o status linguístico das línguas de sinais, assinale a opção que indica um mito.
- A)A Língua de Sinais seria uma mistura de pantomima e gesticulação concreta, incapaz de expressar conceitos abstratos.
Errada, porque línguas de sinais não são simples pantomima ou gesticulação concreta e também expressam conceitos abstratos.
- B)As Línguas de Sinais derivariam da comunicação gestual espontânea dos ouvintes.
Errada, porque as línguas de sinais não derivam apenas da comunicação gestual espontânea dos ouvintes, mas se desenvolvem como línguas naturais em comunidades surdas.
- C)Haveria uma falha na organização gramatical da Língua de Sinais, derivada de outras línguas de sinais, inferior às línguas orais.
Errada, porque as línguas de sinais têm organização gramatical própria e não são linguisticamente inferiores às línguas orais.
- D)Haveria uma única e universal Língua de Sinais usada por todas as pessoas surdas.
Certa, porque essa é exatamente uma concepção equivocada: não existe uma única língua de sinais universal para todas as pessoas surdas.
- E)A Língua de Sinais seria um sistema de comunicação superficial, com conteúdo restrito, sem expressão e estética.
Errada, porque a língua de sinais tem expressividade, riqueza linguística e valor estético, não sendo um sistema superficial ou restrito.
Gabarito: D
A grande ideia da questão é separar mito de realidade sobre as línguas de sinais. Depois dos estudos de Stokoe, ficou claro que elas não são uma “versão pobre” das línguas orais, nem um conjunto de gestos soltos. Elas têm estrutura própria, regras gramaticais, possibilidade de expressar ideias abstratas e plena capacidade comunicativa. Em outras palavras: não é “mímica improvisada”, é língua de verdade. A banca trabalha com concepções antigas e erradas sobre a Libras e outras línguas de sinais. Alguns mitos comuns são: achar que elas nasceram só da gesticulação dos ouvintes, que não têm gramática, que servem apenas para coisas concretas ou que seriam universais. Esse último ponto é clássico em prova: a pessoa imagina que, por serem visuais, todas as línguas de sinais do mundo seriam iguais. Não são. É exatamente por isso que o gabarito é a alternativa D. Se a linguagem fosse única e universal, sinais idênticos apareceriam em todas as comunidades surdas, mas a própria pesquisa citada mostra diferenças relevantes entre línguas de sinais distintas. Ou seja, como nas línguas orais, há diversidade histórica, lexical e cultural entre elas. Do ponto de vista doutrinário, essa visão está alinhada aos estudos linguísticos que consolidaram o status das línguas de sinais como línguas naturais, como os trabalhos inaugurais de Stokoe e a produção de Karnopp e Quadros no contexto brasileiro. Em resumo: Libras não é universal, não é cópia do português e não é menor do que nenhuma outra língua.