Maria, pessoa surda, foi atendida por um médico do Sistema Único de Saúde (SUS) em consulta agendada. A consulta foi acompanhada por um intérprete, previamente solicitado por Maria. Durante a consulta, o médico foi atencioso e manteve contato visual com Maria, dirigindo, primeiramente, seus questionamentos e explicações ao intérprete, quando precisou obter alguma informação com a intenção de facilitar a sua própria compreensão acerca da paciente, bem como nos momentos em que foi necessário transmitir conclusões, orientações ou possíveis procedimentos relacionados à consulta. Em relação ao atendimento descrito, é pertinente afirmar que:
- A)A responsabilidade sobre as decisões e escolhas feitas deve recair sobre o intérprete.
Errada, porque o intérprete não assume responsabilidade pelas decisões e escolhas da paciente, atuando apenas como mediador linguístico.
- B)Tentativas de interação médico-paciente são apreciadas mesmo na presença do intérprete.
Certa, pois a presença do intérprete não impede a interação médico-paciente, que deve ser estimulada para garantir autonomia e acolhimento.
- C)A solicitação da presença do intérprete confirma que ele deverá ser figura central na consulta.
Errada, porque o intérprete não é figura central da consulta, apenas o instrumento que permite a comunicação entre médico e paciente.
- D)Agindo como se a deficiência não existisse, o ouvinte está evitando tratamento discriminatório.
Errada, porque agir como se a deficiência não existisse não elimina discriminação; pelo contrário, pode invisibilizar a necessidade de acessibilidade.
- E)Ao direcionar seus questionamentos para o intérprete, o médico evitou constranger a paciente.
Errada, porque dirigir tudo ao intérprete não evita constrangimento; ao contrário, pode afastar a paciente da própria consulta.
Gabarito: B
No atendimento em saúde à pessoa surda, o intérprete de Libras existe para viabilizar a comunicação, e não para substituir a relação profissional entre médico e paciente. O centro da consulta continua sendo Maria e o médico, com o intérprete fazendo a ponte linguística. Por isso, o profissional de saúde deve manter contato visual, falar diretamente com a paciente e usar o intérprete como meio de acesso à informação, sem transformar a pessoa surda em mera espectadora do próprio atendimento. Essa lógica é compatível com a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, com status constitucional no Brasil, e com a Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015), que reforçam o direito à comunicação acessível e ao atendimento sem barreiras. Na prática, o intérprete não decide, não responde pela paciente e não ocupa lugar de protagonismo na consulta. Ele traduz o que foi dito, preservando fidelidade, imparcialidade e confidencialidade. O gabarito é a letra B porque, mesmo com intérprete, tentativas de interação direta entre médico e paciente são bem-vindas e recomendáveis. Isso evita a sensação de que a pessoa surda foi “terceirizada” na própria consulta. Falar com Maria, e não sobre Maria, é o caminho correto. O intérprete ajuda, mas a relação clínica continua sendo entre os dois sujeitos principais do atendimento.