Segundo Horst e Mioto (2021), na sociedade capitalista contemporânea, o familismo se reproduz como estratégia que
- A)consolida as políticas sociais como estruturantes do Estado capitalista tardio.
Errada, porque o familismo não consolida políticas sociais fortes; ao contrário, tende a enfraquecer a responsabilidade pública e a transferi-la para a família.
- B)caracteriza a família como a base da instituição que estrutura a sociedade.
Errada, porque essa frase fala da família como base da sociedade de modo genérico, mas não expressa a crítica central ao familismo como deslocamento de responsabilidades coletivas.
- C)desloca as questões, que somente coletivamente poderão ser resolvidas, para o âmbito particular.
Certa, porque descreve exatamente a estratégia de jogar para o espaço privado problemas que exigiriam respostas públicas e coletivas.
- D)assume expressão máxima de proteção com o surgimento da família nuclear patriarcal burguesa.
Errada, porque associa o tema à família nuclear patriarcal burguesa, mas não define o familismo como estratégia de reprodução das responsabilidades familiares sobre questões sociais.
- E)nstitui o padrão patriarcal-monogâmico burguês, fundamentado pelo desvio moral de seus membros.
Errada, porque mistura patriarcado, monogamia e desvio moral, conceitos que não resumem a lógica do familismo discutida por Horst e Mioto.
Gabarito: C
O familismo, na leitura de Horst e Mioto (2021), aparece quando o Estado e as políticas sociais passam a empurrar para a família responsabilidades que deveriam ser enfrentadas de forma pública e coletiva. Em vez de reconhecer que certos problemas têm origem social e exigem proteção social, o sistema trata essas demandas como se fossem assuntos de casa, de afeto e de esforço privado. Na prática, isso faz a família virar uma espécie de "plano B" permanente: ela é chamada a cuidar, resolver, amortecer e suportar situações como pobreza, cuidado com crianças, idosos, pessoas com deficiência e outras necessidades sociais. O problema é que nem toda família tem condições materiais e emocionais para dar conta disso sozinha. Aí a conta fica injustamente no colo de quem já está sobrecarregado. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela traduz exatamente essa lógica: questões que somente coletivamente poderiam ser resolvidas são deslocadas para o âmbito particular. Em linguagem de prova, isso é o familismo como estratégia de desresponsabilização estatal e de privatização dos riscos sociais. Esse debate dialoga com a crítica da literatura de política social e com a Constituição Federal de 1988, que prevê direitos sociais e proteção social como dever do Estado e da sociedade, não como missão exclusiva da família. Quando a família substitui a política pública, o direito encolhe e a proteção vira improviso.