Iamamoto (2009) afirma que “os espaços ocupacionais refratam as particulares condições e relações de trabalho prevalentes na sociedade brasileira nesses tempos de profunda alteração da base técnica da produção com a informática, a biotecnologia, a robótica e outras inovações tecnológicas e organizacionais que potenciam a produtividade e a intensificação do trabalho. É esse solo histórico movente que atribui novos contornos ao mercado profissional de trabalho, diversificando os espaços ocupacionais e fazendo emergir inéditas requisições e demandas a esse profissional, novas habilidades, competências e atribuições. Mas ele impõe também específicas exigências de capacitação acadêmica que permitam atribuir transparências às brumas ideológicas que encobrem os processos sociais e alimentem um direcionamento ético-político e técnico ao trabalho do assistente social capaz de impulsionar o fortalecimento da luta contra hegemônica comprometida com o universo do trabalho”. Assinale a opção que se contrapõe a esta análise.
- A)As propostas de intervenção devem contar com a boa vontade de participação dos trabalhadores.
Errada, porque aposta no voluntarismo e na boa vontade, contrariando a exigência de análise crítica e mediação profissional defendida por Iamamoto.
- B)Os espaços ocupacionais contêm elementos simultaneamente reprodutores e superadores da ordem.
Certa, pois reconhece que os espaços ocupacionais são contraditórios, ao mesmo tempo reproduzindo e podendo superar a ordem vigente.
- C)O conhecimento criterioso dos processos sociais e de sua vivência pelos indivíduos sociais poderá alimentar ações inovadoras.
Certa, porque valoriza o conhecimento crítico da realidade social como base para ações profissionais inovadoras e consistentes.
- D)Enfatiza-se a importância de um profissional consistente, crítico e capaz de formular, recriar e avaliar propostas que apontem para a progressiva democratização das relações sociais.
Certa, já que reforça a necessidade de um profissional crítico, capaz de formular, recriar e avaliar propostas voltadas à democratização.
- E)O assistente social precisa se qualificar para compreender as particularidades das desigualdades de classe, gênero e raça no espaço da empresa privada.
Certa, pois dialoga com a exigência de qualificação para compreender as particularidades das desigualdades de classe, gênero e raça no espaço ocupacional.
Gabarito: A
A fala de Iamamoto destaca uma visão crítica do trabalho do assistente social: os espaços ocupacionais mudam conforme as transformações do capitalismo, e isso exige leitura rigorosa da realidade, qualificação teórica e postura ético-política. Em outras palavras, não basta “querer ajudar”; é preciso compreender as determinações sociais, as desigualdades e os interesses em jogo para construir intervenções profissionais consistentes. Nesse contexto, a atuação do Serviço Social não pode se apoiar em improviso, nem em apelos genéricos à boa vontade. A profissão trabalha com mediações concretas, análise crítica e planejamento, justamente para não cair em soluções moralizantes ou voluntaristas. Esse é um ponto central da obra de Iamamoto e também do Projeto Ético-Político do Serviço Social. Por isso, a alternativa A é a que se contrapõe à análise do enunciado. Dizer que as propostas de intervenção devem contar com a boa vontade de participação dos trabalhadores reduz a prática profissional a um voluntarismo ingênuo, como se bastasse disposição subjetiva para enfrentar problemas estruturais. A perspectiva de Iamamoto vai no sentido oposto: ela exige conhecimento, crítica e compromisso com a transformação social. As demais alternativas seguem a linha da autora: reconhecem a contradição dos espaços ocupacionais, valorizam o conhecimento dos processos sociais e defendem um profissional crítico, capaz de formular e avaliar propostas democratizantes. Em provas da FGV, atenção: a banca costuma trocar a leitura crítica por discursos bonitos, porém vazios, como se participação espontânea resolvesse tudo sozinha.