“A tradição autoritária, segundo o pensamento social brasileiro em Holanda (2016), Faoro (2008) e Schwartzan (1988), foi uma marca perene da formação econômica e sociopolítica do Brasil, cujas bases estariam alicerçadas no regime de apropriação privada da terra, na ausência de relações de solidariedade social, na primazia das relações pessoais e familiares e no poder indelével das elites rurais, dos ‘coronéis’ e sua íntima relação com o processo político.” (Rezende, 2020, p. 1. A Formação Social do Estado Brasileiro: origens e a modernização no pensamento político institucional. Disponível em: link) Com relação ao processo de formação socioeconômica e sociopolítica do Brasil, marque a opção correta:
- A)A colonização brasileira não teve um caráter privatista.
Errada, porque a colonização brasileira teve sim forte caráter privatista, com concessões de terra, exploração econômica e poder local concentrado nas mãos de particulares.
- B)A monocultura perdurou no Brasil até o final do século XVII.
Errada, porque a monocultura não ficou restrita até o fim do século XVII; ela foi um traço estrutural da economia colonial por muito mais tempo, especialmente ligada ao açúcar e depois a outras culturas de exportação.
- C)A relação entre latifúndio e escravatura no Brasil foi tênue.
Errada, porque latifúndio e escravatura estiveram profundamente associados na formação brasileira, e não de forma tênue.
- D)Foi marcada pela indistinção entre a esfera pública e privada.
Certa, porque a tradição brasileira foi marcada pela confusão entre interesses privados das elites e a esfera pública, com forte peso do patrimonialismo e do mando local.
- E)O patrimonialismo não assumiu papel de destaque.
Errada, porque o patrimonialismo é justamente um dos elementos centrais para entender a formação política brasileira e o predomínio de relações pessoais sobre instituições impessoais.
Gabarito: D
A formação social brasileira foi marcada, desde a colonização, por uma lógica de ocupação da terra ligada ao privado, ao mando local e às relações pessoais, e não por uma separação nítida entre o que era do Estado e o que era da elite. Em autores como Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro e outros intérpretes do Brasil, aparece com força a ideia de que a vida pública foi muitas vezes capturada pelos interesses privados, familiares e patrimoniais. Isso ajuda a entender por que o Brasil colonial e parte do Império e da República Velha foram atravessados por coronelismo, clientelismo e patrimonialismo. Em vez de uma administração impessoal, o que predominava era o uso da coisa pública como extensão dos interesses dos grupos dominantes. A política, nesse cenário, tinha muito mais cheiro de compadrio do que de cidadania. Por isso, o gabarito correto é a alternativa D: a formação socioeconômica e sociopolítica do Brasil foi marcada pela indistinção entre esfera pública e privada. Essa é uma chave clássica do pensamento social brasileiro, especialmente em Casa-Grande & Senzala, Raízes do Brasil e Os Donos do Poder, obras que ajudam a explicar a permanência de traços autoritários na organização da sociedade. Em prova, quando aparecer privatismo, patrimonialismo, coronelismo e confusão entre público e privado, acenda o alerta. A banca costuma cobrar justamente essa leitura crítica da herança colonial e oligárquica do Brasil.