Maria Lúcia Silva Barroco, ao se debruçar sobre a dimensão ética e seus desdobramentos na compreensão do exercício ético profissional no serviço social, apresenta a ética enquanto parte da práxis social individual que se desdobra nas relações sociais cotidianas. Dessa forma, a ética se correlaciona com a categoria central que dita a sociabilidade das pessoas, qual seja, o trabalho que irá objetivar suas ações, bem como os objetivos e finalidades a serem alcançados. Assim, o trabalho irá moldar o processo coletivo de construção do regramento ético das profissões num contexto histórico, social e cultural determinado pelas condicionantes que os compõem, em que se pode definir, a priori, o sistema capitalista. Maria Lúcia Silva Barroco. Fundamentos éticos do Serviço Social. In: CFESS. Serviço Social: Direitos sociais e competências profissionais. Unidade III. Brasília, CFESS, v. 1, 2009. Internet: www.cressrn.org.br (com adaptações). A partir do excerto apresentado, é correto afirmar que os projetos profissionais sob as bases da compreensão do exercício ético se apresentam como
- A)construções individuais que se correlacionam com as visões coletivas e políticas da sociedade, numa dimensão que pauta as bases para a elaboração de uma normativa que consiga compreender de fato os limites e possibilidades de atuação do exercício profissional.
Errada, porque reduz o projeto profissional a construções individuais, quando ele é, na verdade, coletivo e historicamente determinado.
- B)construções coletivas e históricas que correlacionam as visões individuais, políticas e sociais da categoria profissional na busca pela objetivação de uma vida e exercício profissional ético na busca de sua normatização através dos códigos de ética, trabalhando as dimensões do individual com o coletivo, orientando as relações entre as instituições, os usuários e a sociedade.
Certa, pois reconhece o caráter coletivo, histórico e político do projeto profissional e sua relação com a normatização ética da categoria.
- C)expressões da categoria trabalho, o qual se apresenta como o centro da construção da sociabilidade humana, servindo, por consequência, de baliza para toda a dimensão ética e moral da sociedade, sob princípios individuais de vivência e compreensão de mundo.
Errada, porque confunde a centralidade do trabalho na sociabilidade humana com uma leitura individualista da ética, o que não corresponde ao projeto profissional.
- D)preceitos elaborados pela sociedade que compilam suas dimensões morais e éticas, apresentando-se enquanto normativas nos códigos de ética profissionais, configurando-se enquanto ferramentas aptas a moldar os projetos profissionais numa dimensão pragmática do exercício profissional, com vistas à consagração de dimensões de justiça social aos que dela necessitam.
Errada, pois trata as normas éticas como mera compilação moral da sociedade e ainda as coloca numa perspectiva pragmática, sem destacar o caráter histórico e crítico do projeto profissional.
- E)dimensões do exercício individual ampliado para o coletivo, que devem pautar os preceitos do exercício profissional a partir de uma perspectiva endógena da profissão, garantindo, assim, uma compreensão mais autêntica ao projeto profissional ético-político.
Errada, porque fala em perspectiva endógena e em exercício individual ampliado, o que desloca o projeto profissional de sua base coletiva, social e histórica.
Gabarito: B
A questão gira em torno de um ponto central do Serviço Social: o projeto profissional não nasce do nada, nem é só uma escolha individual do assistente social. Ele é uma construção histórica e coletiva, atravessada pelas condições concretas da sociedade, especialmente no capitalismo, que organiza o trabalho, os conflitos e as necessidades sociais. É por isso que Barroco relaciona ética, práxis social e trabalho: a ética profissional não é uma lista solta de boas intenções, mas um conjunto de valores e princípios que ganha forma na vida social e na atuação da categoria. No Serviço Social, o exercício ético-profissional é normatizado por instrumentos como o Código de Ética Profissional de 1993, a Lei 8.662/1993 e as diretrizes da formação e organização da categoria. Esses instrumentos não surgem apenas da vontade de uma pessoa ou de uma instituição isolada, mas de um processo coletivo de amadurecimento ético-político da profissão. Em outras palavras: o projeto profissional é histórico, social e político, e busca orientar a intervenção com base em direitos, liberdade, justiça social e defesa da cidadania. A alternativa B está correta porque descreve exatamente essa lógica: uma construção coletiva e histórica, que articula dimensões individuais, políticas e sociais da categoria, orientando a normatização ética por meio dos códigos de ética e das relações com usuários, instituições e sociedade. Isso dialoga diretamente com a compreensão de Barroco sobre ética como parte da práxis social e com a tradição ético-política do Serviço Social brasileiro. Já o erro clássico aqui é achar que o projeto profissional é algo apenas individual, pragmático ou reduzido à moral pessoal. No Serviço Social, não funciona como um “manual de boa conduta” desconectado da realidade: ele expressa uma direção social da profissão, vinculada ao trabalho, à história e aos संघर्षos da sociedade.