A reforma psiquiátrica brasileira reconfigurou a atenção em saúde mental e possibilitou a ampliação dos recursos utilizados com propósito terapêutico. Um desses recursos refere-se à realização de oficinas. É comumente aceito, no contexto da saúde mental, que as oficinas são dispositivos
- A)construídos, essencialmente, no cotidiano dos usuários e técnicos dos serviços de saúde mental.
Correta: as oficinas, na saúde mental, são construídas no cotidiano dos usuários e dos trabalhadores, de forma coletiva e flexível.
- B)concebidos para enfatizar os benefícios da realização do trabalho com caráter produtivo.
Errada: a oficina não existe para enfatizar produtividade ou lógica de trabalho, mas para cuidado, vínculo e inclusão.
- C)planejados de acordo com padrões metodológicos padronizados e fundamentação teórica específica.
Errada: embora possam ter intencionalidade, não são dispositivos marcados por padronização rígida e metodologias fechadas.
- D)utilizados a fim de favorecer a adaptação dos indivíduos com transtornos mentais aos padrões normativos.
Errada: a finalidade não é adaptar o indivíduo a padrões normativos, e sim favorecer autonomia, participação e cidadania.
- E)conduzidos de forma assistemática, sem que nenhum objetivo ou metodologia sejam definidos previamente.
Errada: oficinas não são ações sem planejamento; elas têm objetivos e direção terapêutica, ainda que sejam flexíveis.
Gabarito: A
Na reforma psiquiátrica brasileira, a atenção em saúde mental deixou de girar em torno da internação e passou a valorizar a convivência, a autonomia e a reinserção social. Nesse cenário, as oficinas aparecem como dispositivos terapêuticos muito importantes, porque não são só "atividades para ocupar o tempo". Elas servem para criar vínculo, estimular expressão, troca e participação real no cotidiano do serviço. O ponto central é este: as oficinas não nascem prontas em um manual fechado. Elas são construídas no dia a dia, a partir das necessidades, interesses e possibilidades dos usuários e da equipe. Por isso, o gabarito é a alternativa A. A oficina, na lógica psicossocial, é um recurso vivo, flexível e produzido coletivamente, e não algo engessado ou meramente disciplinador. Essa visão combina com os princípios da Reforma Psiquiátrica e da Lei 10.216/2001, que orienta um cuidado em liberdade, com respeito à cidadania e à inclusão social. Nos CAPS e outros serviços substitutivos, oficinas podem envolver arte, música, culinária, leitura, trabalho, conversa ou qualquer prática que ajude no cuidado e na circulação social do usuário. Então, quando a questão fala em "dispositivos", pense em ferramentas terapêuticas que se fazem na prática, no encontro entre pessoas. Em saúde mental, às vezes o tratamento mais potente não vem de um protocolo rígido, mas de uma atividade construída com o sujeito, e não para o sujeito.