Os saberes médicos ocupam uma posição hegemônica no campo de drogas contemporâneo, influenciando políticas públicas e ofertas assistenciais e preventivas da dependência de substâncias psicoativas. Com relação à influência dos saberes médicos nessa área, é correto afirmar, de uma forma crítica, que
- A)fundamentam uma perspectiva questionadora quanto à normatização dos comportamentos dos usuários.
Errada, porque o saber médico crítico não é, em regra, questionador da normatização dos usuários; muitas vezes ele também participa da produção de normas e condutas esperadas.
- B)são amparados no conhecimento do sistema neurológico e da genética e defendem a autonomia dos usuários.
Errada, porque embora use conhecimentos de neurociência e genética, isso não implica defesa da autonomia dos usuários, e sim uma leitura frequentemente centrada no controle e na explicação biológica do problema.
- C)compõem a articulação de três formações discursivas, sendo elas a medicalização, a criminalização e a moralização dos usuários.
Certa, porque expressa a articulação entre medicalização, criminalização e moralização dos usuários, formulação clássica na análise crítica do campo das drogas.
- D)compreendem a dependência de drogas como um problema de personalidade, sendo consenso a defesa da redução de danos.
Errada, porque reduzir a dependência a problema de personalidade é uma explicação ultrapassada e simplificadora, e a redução de danos não é consenso absoluto entre todas as correntes.
- E)consideram que o uso compulsivo de drogas tem a função de redefinir a representação do corpo na dinâmica psíquica, valorizando as psicoterapias.
Errada, porque essa formulação aproxima o uso de drogas de uma leitura psicodinâmica muito específica e valoriza psicoterapias, o que não caracteriza a crítica sociopolítica pedida pela questão.
Gabarito: C
Quando a Psicologia e a Saúde Pública olham para o campo das drogas, a visão crítica não fica presa a uma única lente. O tema costuma ser explicado pela junção de três discursos que se reforçam: o da medicalização, que transforma o uso em problema de saúde e tratamento; o da criminalização, que trata o usuário como caso de polícia; e o da moralização, que o julga como desvio de caráter ou falta de força de vontade. Essa tríade ajuda a entender por que, historicamente, a resposta social ao uso de drogas oscila entre remédio, punição e reprovação. É exatamente isso que a alternativa C traz. Ela descreve essa articulação de forma crítica, mostrando que a posição hegemônica dos saberes médicos não atua sozinha: ela se mistura com outras formas de controle social e de construção do problema. Em vez de olhar apenas para a substância ou para o cérebro, essa leitura percebe também como a sociedade define o que é normal, perigoso e aceitável. As outras alternativas escorregam porque tentam vender uma imagem mais limpa e idealizada do discurso médico, como se ele fosse automaticamente libertador, neutro ou consensual. Na prática, a crítica ao campo das drogas mostra justamente o contrário: muitas vezes o saber médico participa da normalização dos comportamentos e da produção de estigmas. Então, guarde a ideia-chave: no debate sobre drogas, a abordagem crítica costuma enxergar a mistura de medicalização, criminalização e moralização. É essa combinação que ajuda a explicar a força das políticas, dos tratamentos e também dos preconceitos nesse campo.