Na conferência intitulada “Crise da medicina ou crise da antimedicina”, realizada no Brasil por Michel Foucault em 1974, o autor enfatizou que a perspectiva do direito à saúde surgiu num contexto em que a noção de Estado à serviço do indivíduo em boa saúde foi substituída pela noção de indivíduo em boa saúde à serviço do Estado. Considerando a visão crítica do autor, um aspecto da atuação da psicologia na saúde coletiva é
- A)questionar o uso da psicologia para instrumentalizar o controle do individual e do coletivo.
Certa, porque expressa a crítica foucaultiana ao uso da psicologia como ferramenta de controle e normatização dos sujeitos e da coletividade.
- B)articular a psicologia a outros saberes da saúde para fomentar a distinção entre o normal e o anormal.
Errada, porque reforçar a distinção entre normal e anormal é justamente um movimento de classificação e normalização criticado por Foucault.
- C)contribuir para o cuidado do corpo, entendendo que o acesso a direitos é indissociável do cumprimento de deveres.
Errada, porque associa saúde a deveres do indivíduo perante o Estado, o que contraria a crítica apresentada no enunciado.
- D)denunciar a cientificidade e a eficácia da medicina moderna, uma vez que a psicologia converteu-se em antimedicina.
Errada, porque a psicologia não se converteu em antimedicina, e a questão não pede uma condenação da cientificidade da medicina moderna.
- E)fundamentar o papel das ciências humanas e sociais para normalizar o cuidado no campo da saúde.
Errada, porque falar em normalizar o cuidado mantém a lógica disciplinadora e de padronização que a visão crítica do autor problematiza.
Gabarito: A
Michel Foucault faz uma leitura crítica da medicina e das políticas de saúde: em vez de enxergar a saúde só como cuidado neutro e bondoso, ele chama atenção para o uso da medicina como instrumento de gestão dos corpos e das populações. Ou seja, a saúde coletiva pode virar um campo de vigilância, normatização e controle, e não apenas de promoção de bem-estar. É exatamente esse o ponto que a psicologia, numa perspectiva crítica, precisa não perder de vista. Nesse cenário, a atuação da psicologia na saúde coletiva não deve servir para reforçar mecanismos de controle do comportamento individual e social. Quando a psicologia é usada apenas para adaptar pessoas a normas, corrigir desvios e padronizar condutas, ela ajuda a produzir aquilo que Foucault critica: um sujeito ajustado às exigências institucionais, e não um cuidado emancipador. Por isso, o gabarito é a letra A. Ela traduz bem a visão foucaultiana ao questionar o uso da psicologia para instrumentalizar o controle do individual e do coletivo. Em vez de atuar como ferramenta de vigilância, a psicologia na saúde coletiva deve favorecer escuta, autonomia, vínculo e análise crítica das condições de vida e de sofrimento. Em concursos, a lógica é esta: desconfie das alternativas que tratam saúde como simples normalização. Foucault costuma aparecer para lembrar que nem todo cuidado é inocente, e que muitas práticas sanitárias podem esconder relações de poder.