Com relação ao fenômeno da dependência química, avalie as afirmativas a seguir: I. Historicamente os homens são mais afetados pelo alcoolismo no Brasil, embora o consumo de álcool venha crescendo entre mulheres; II. A dependência química se caracteriza como um conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que se desenvolvem após o uso repetido de determinada substância; III. A dependência a uma ou mais substâncias costuma estar associada a uma somatória de diferentes fatores de riscos com fatores biológicos, comportamentais e biopsicossociais. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
Esta alternativa sustenta que somente a afirmativa I estaria correta, isto é, que historicamente os homens foram mais afetados pelo alcoolismo no Brasil, embora o consumo entre mulheres venha aumentando. Esse dado epidemiológico é plausível e encontra respaldo na literatura, mas o enunciado não se limita a isso. Como as afirmativas II e III também estão corretas por trazerem a definição técnica de dependência e sua natureza multifatorial, a exclusividade proposta pela alternativa não se sustenta.
- B)II, apenas.
Aqui se afirma apenas o conteúdo da afirmativa II, que descreve a dependência química como um conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos decorrentes do uso repetido de uma substância. Essa é justamente a formulação clássica da dependência no campo da psicopatologia e da classificação internacional das doenças. O problema é que a questão também traz as afirmativas I e III como verdadeiras, então restringir a resposta a II ignora outras proposições corretas.
- C)III apenas.
Esta opção limita a resposta à afirmativa III, segundo a qual a dependência de substâncias costuma resultar da interação de fatores biológicos, comportamentais e biopsicossociais. O conteúdo está alinhado com a compreensão atual de que a dependência tem etiologia multifatorial, envolvendo vulnerabilidades genéticas, padrões de comportamento e contexto social. Ainda assim, II também está correta e I é verdadeira no plano epidemiológico, de modo que não se pode marcar apenas III.
- D)I e II, apenas.
A alternativa reúne as afirmativas I e II, descrevendo, de um lado, a predominância histórica do alcoolismo em homens no Brasil, com crescimento do consumo entre mulheres, e, de outro, a definição de dependência química como fenômeno comportamental, cognitivo e fisiológico após uso repetido. Esses dois enunciados estão corretos e têm respaldo na epidemiologia e nas definições diagnósticas da área. O erro está em excluir a afirmativa III, que também é verdadeira ao apontar a origem multifatorial da dependência.
- E)I, II e III.
Esta é a combinação integral das três afirmativas: o perfil histórico de maior acometimento masculino pelo alcoolismo no Brasil com aumento recente entre mulheres, a definição técnica de dependência química e a explicação multifatorial baseada em riscos biológicos, comportamentais e psicossociais. As três proposições estão em consonância com a literatura de psicopatologia e com a visão atual de que a dependência não decorre de um único fator. Por isso, a alternativa reúne corretamente todo o conjunto de assertivas verdadeiras.
Gabarito: E
A dependência química, hoje chamada com mais precisão de transtorno por uso de substâncias em muitas classificações diagnósticas, não é só “falta de força de vontade”. Ela envolve um conjunto de fenômenos comportamentais, cognitivos e fisiológicos que aparecem e se consolidam com o uso repetido de uma substância, como tolerância, fissura, perda de controle e continuidade do uso apesar dos prejuízos. Isso faz sentido com a afirmativa II. Também é correto dizer que a dependência costuma nascer da soma de vários fatores de risco. A literatura em psicopatologia e saúde mental aponta a influência de elementos biológicos, psicológicos, familiares, sociais e comportamentais. Ou seja, não existe um único vilão na história: é quase sempre um quebra-cabeça de vulnerabilidades e contextos, o que confirma a afirmativa III. A afirmativa I também está correta. Historicamente, os homens apresentaram maior prevalência de alcoolismo no Brasil, mas os estudos epidemiológicos mostram aumento do consumo de álcool entre mulheres, com redução dessa diferença em alguns recortes. Então a banca está cobrando um olhar atualizado: o padrão tradicional masculino ainda aparece, mas o consumo feminino vem crescendo. Por isso, o gabarito é E, porque as três assertivas estão compatíveis com o entendimento doutrinário e epidemiológico sobre dependência química. Em concurso, vale lembrar: a FGV gosta de misturar definição clínica, fatores de risco e tendência epidemiológica na mesma questão, para ver se você lê o tema como um todo e não só um pedaço.