Lacan deu importantes contribuições à clínica da psicose, sendo conhecido o seu axioma de que o analista não deve recuar frente a ela. Em considerando que a transferência é indispensável na condução do tratamento analítico, é correto afirmar que para Lacan a transferência na psicose:
- A)apresenta-se de forma maciça, efeito do mecanismo de foraclusão;
Certa: para Lacan, na psicose a transferência pode aparecer de forma maciça e intensa, relacionada à foraclusão do Nome-do-Pai.
- B)há uma retração da libido do objeto para o eu, portanto, não há transferência;
Errada: isso remete mais a uma leitura freudiana da psicose, mas Lacan não conclui que simplesmente não exista transferência.
- C)deve ser interpretada da mesma forma exigida pela técnica analítica direcionada ao tratamento das neuroses;
Errada: Lacan não manda tratar a psicose como neurose, porque a lógica transferencial e a direção do tratamento são diferentes.
- D)surge a partir do mundo dos objetos que a criança internaliza desde o nascimento, através dos mecanismos de introjeção e projeção;
Errada: essa formulação mistura noções genéricas de introjeção e projeção, que não expressam o eixo lacaniano da psicose.
- E)O analista é colocado no lugar de suposto saber, permitindo o psicótico associar livremente e suspender os efeitos do recalque.
Errada: a ideia de sujeito suposto saber é central na neurose, mas na psicose a relação com o analista não segue esse mesmo mecanismo de forma simples.
Gabarito: A
Para Lacan, a psicose não é um terreno em que a transferência desaparece. Pelo contrário, ela pode surgir de forma intensa e até invasiva, porque a relação com o Outro fica marcada por uma falha estrutural ligada à foraclusão do Nome-do-Pai. Isso faz com que o sujeito psicótico possa se endereçar ao analista com muita força, mas de um modo diferente do que se vê na neurose. Na neurose, a transferência costuma organizar a análise como repetição de conflitos e desejos recalcados. Na psicose, a lógica é outra: o analista pode ser colocado numa posição muito carregada, frequentemente tomada como presença maciça, persecutória ou de certeza absoluta. Em vez de uma transferência “mansa”, aparece uma relação transferencial que pode ser mais bruta, mais direta e mais difícil de manejar. Por isso, Lacan insiste que o analista não deve recuar diante da psicose, mas precisa saber sustentar a posição clínica sem aplicar automaticamente a técnica pensada para a neurose. Em outras palavras: há transferência, sim, mas ela não segue o mesmo roteiro clássico. O ponto decisivo do gabarito é justamente esse: na psicose, a transferência pode se apresentar de maneira maciça, como efeito da foraclusão. As outras alternativas escorregam em ideias de Freud sobre libido, recalque e técnicas da neurose, mas isso não resolve o problema lacaniano da psicose. Aqui, o essencial é lembrar que Lacan não nega a transferência na psicose; ele a redefine.