Clarice é psicóloga clínica e muito religiosa. Na escuta de Lucas, um paciente com ideação suicida, a profissional sugeriu que ele passasse a rezar todas as noites. Diante dessa situação hipotética é correto afirmar que
- A)a psicóloga agiu corretamente, incorporando sua crença religiosa no atendimento do paciente.
Errada, porque a psicóloga não pode incorporar sua crença religiosa como se fosse técnica psicológica válida para o atendimento.
- B)Lucas deve expressar primeiro sua aquiescência religiosa antes da sugestão da oração.
Errada, porque a validade da intervenção não depende de aquiescência religiosa prévia do paciente, e isso não autoriza a sugestão pela profissional.
- C)Clarice pode sugerir orações e participação em missas como estratégia terapêutica porque Lucas é católico.
Errada, porque a religião do paciente não transforma oração e missa em estratégia terapêutica automática, especialmente sem indicação clínica e cautela ética.
- D)Clarice não deve indicar propostas religiosas sem solicitar formalmente ao CRP primeiro.
Errada, porque não existe essa exigência de pedir autorização formal ao CRP para cada conduta religiosa; o problema aqui é ético, não burocrático.
- E)a profissional não pode induzir crenças religiosas no exercício profissional.
Certa, porque o psicólogo não deve induzir crenças religiosas no exercício profissional, sob pena de violar a ética da profissão.
Gabarito: E
A questão gira em torno de um ponto clássico da ética profissional em Psicologia: o atendimento não pode virar palanque de crença pessoal. A psicóloga pode ter religião, mas isso fica do lado de fora do setting terapêutico quando a sugestão religiosa não é tecnicamente justificada e ainda mais em um caso de ideação suicida, que exige cuidado técnico, avaliação de risco e intervenções baseadas na ciência psicológica. O Código de Ética Profissional do Psicólogo veda usar a profissão para induzir convicções de natureza religiosa, política, filosófica, moral ou ideológica. Em outras palavras: a escuta clínica não é espaço para converter, orientar espiritualidade ou empurrar a fé do profissional para o paciente, como se fosse receita pronta. A religião do paciente até pode ser considerada se ele trouxer isso espontaneamente e se houver pertinência clínica, mas sempre com respeito à autonomia e sem imposição. Por isso, o gabarito é a letra E. Ela traduz exatamente a vedação ética: a profissional não pode induzir crenças religiosas no exercício profissional. Se o paciente quiser falar sobre espiritualidade, tudo bem; se houver relação com a demanda e com o contexto do próprio paciente, o psicólogo pode acolher o tema com cuidado. O que não pode é usar sua crença como intervenção automática, muito menos como atalho terapêutico. Em temas de ética, a FGV costuma cobrar esse equilíbrio: liberdade de crença do psicólogo existe, mas não autoriza misturar convicção pessoal com atuação profissional. No consultório, a bússola é técnica, ética e respeito à autonomia do paciente, não a fé do profissional.