Tanto a entrevista clínica quanto a forense são procedimentos técnico-científicos que têm em comum estratégias para evocar narrativas que buscam sustentar as conclusões da avaliação com base em evidências. A respeito dessas duas modalidades de entrevistas, é correto afirmar que
- A)o entrevistador clínico deve adotar uma postura neutra para obter evidências sobre os fatos que figuram como possíveis violações de direitos.
Errada: a entrevista clínica não tem como objetivo investigar violações de direitos de modo neutro e pericial, pois seu foco é terapêutico e compreensivo.
- B)o uso de testes projetivos tem como pré-requisito a narração exata de como a pessoa pensa e se comporta para revelar aspectos de sua personalidade.
Errada: testes projetivos não exigem narração exata de pensamentos e comportamentos, e sim uma produção interpretável que permita inferências psicológicas.
- C)nas entrevistas semiestruturadas, todas as perguntas aos entrevistados são lidas palavra por palavra e na ordem previamente determinada.
Errada: isso descreve entrevista estruturada; na semiestruturada há roteiro, mas também flexibilidade para explorar respostas e aprofundar temas.
- D)a entrevista forense tem como objetivo promover as narrativas subjetivas dos entrevistados em prol do desenvolvimento emocional do indivíduo.
Errada: a entrevista forense não busca promover narrativas subjetivas para desenvolvimento emocional, mas produzir informação técnica para uma finalidade jurídica.
- E)o risco de simulação ou dissimulação tende a aumentar nos casos de entrevistados que estão em um contexto forense.
Certa: no contexto forense, interesses secundários podem aumentar a chance de simulação ou dissimulação, exigindo avaliação mais criteriosa da credibilidade do relato.
Gabarito: E
A entrevista clínica e a entrevista forense podem até parecer “primas”, mas elas servem a objetivos bem diferentes. Na clínica, o foco está em compreender o sofrimento, organizar a história do paciente e ajudar no cuidado. Na forense, o foco é subsidiar uma decisão técnica em contexto jurídico, então a narrativa precisa ser avaliada com muito cuidado, porque há consequências externas importantes em jogo. É justamente aí que mora o ponto da questão: no contexto forense, o risco de simulação, dissimulação, omissão e até exagero de sintomas costuma aumentar. A pessoa pode ter interesse em obter vantagem processual, evitar punição, conseguir guarda, benefício, absolvição ou reduzir responsabilidade, o que exige do entrevistador uma postura técnica, crítica e baseada em múltiplas fontes de informação. Na prática, isso significa que a entrevista forense não se contenta só com “o que foi dito”. Ela busca consistência interna, compatibilidade com outros dados, observação comportamental e, quando necessário, instrumentos psicológicos adequados. Já a entrevista clínica tende a favorecer uma escuta mais acolhedora e voltada ao vínculo terapêutico, sem a mesma lógica pericial. Por isso, a alternativa correta é a E. A doutrina em Psicologia Forense e Avaliação Psicológica é clara ao apontar que o contexto judicial aumenta o incentivo para manipulação da informação, o que torna a entrevista forense um ambiente em que a credibilidade do relato precisa ser examinada com mais rigor.