Marcelo é médico intensivista em um grande hospital público e trabalha, sob grande pressão, com pacientes críticos. Em uma ocasião, padecendo de dores de cabeça e estressado, com um longo plantão pela frente, Marcelo se prescreveu um opioide que lhe trouxe imediato alívio e sensação de grande bem-estar. Marcelo passou a fazer uso eventual, mas foi paulatinamente intensificando o uso, a ponto de forjar receitas na tentativa de despistar o controle da farmácia do hospital para obter mais comprimidos da substância. Sobre a situação que Marcelo atravessa, é correto apontar que
- A)a tolerância à substância psicoativa se manifesta pela necessidade de aumentar progressivamente a dosagem usada para alcançar o efeito esperado.
Certa: descreve corretamente tolerância, que é a necessidade de aumentar a dose para manter o mesmo efeito.
- B)a abstinência se caracteriza pela sensação de superação do vício ao final do longo processo de desintoxicação química.
Errada: abstinência é o conjunto de sintomas após redução ou suspensão da substância, não uma sensação de cura.
- C)a intoxicação pela substância psicoativa é uma reação crônica que acontece pelo uso cumulativo da substância estimulante.
Errada: intoxicação é um estado agudo após o uso, e não uma reação crônica por acúmulo de estimulantes.
- D)Marcelo pode reduzir os danos da ingestão dos opioides combinando seu uso com o de substâncias que agem como antídoto.
Errada: não existe regra geral de que combinar opioides com antídotos reduza danos, e a associação pode ser perigosa.
- E)as chances de Marcelo desenvolver uma dependência química de opioides são menores pelo fato de ele, como médico, deter um conhecimento técnico quanto aos riscos do uso e do abuso.
Errada: conhecimento técnico não imuniza contra dependência, e profissionais de saúde também podem desenvolver uso problemático.
Gabarito: A
A questão trata de uso problemático de opioides e dos conceitos clássicos ligados à dependência: tolerância, abstinência, intoxicação e comportamento de busca pela substância. Em Psicopatologia, a tolerância aparece quando a pessoa precisa de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito que antes conseguia com menos quantidade. É um sinal muito comum em quadros de uso repetido de substâncias psicoativas. No caso de Marcelo, o enunciado descreve justamente a escalada do consumo: ele começou com uso eventual, depois passou a intensificar o uso e até fraudou receitas para obter mais comprimidos. Esse padrão combina muito bem com tolerância e também sugere um processo de dependência em formação, com perda de controle e compulsão para usar a substância. A abstinência é o contrário do que a alternativa B sugere: não é sensação de “cura” ou superação do vício, mas um conjunto de sintomas físicos e psíquicos que surge quando a substância é interrompida ou reduzida. Já intoxicação não é um fenômeno crônico cumulativo, e sim um estado agudo de efeitos da droga no organismo. E combinar opioide com outro medicamento não é uma saída mágica segura, porque isso pode inclusive aumentar riscos, como depressão respiratória. Na doutrina psiquiátrica e nos manuais diagnósticos, como o DSM-5, tolerância é definida exatamente pela necessidade de quantidades maiores da substância para atingir intoxicação ou efeito desejado, ou por efeito reduzido com a mesma dose. Por isso, a alternativa A traduz corretamente o conceito e é a resposta certa.