Como discutido pelo Conselho Federal de Psicologia (2019), o conceito de “dependência química” é proveniente de uma perspectiva biomédica. Com relação ao paradigma biomédico no campo de drogas, é correto afirmar que
- A)valoriza os aspectos clínicos, socioculturais e políticos que constituem as práticas de cuidado no campo de drogas.
Errada, porque valorizar aspectos clínicos, socioculturais e políticos é típico de uma visão ampliada e psicossocial, não do paradigma biomédico.
- B)é hegemônico no campo de saúde, defendendo a integralidade do cuidado e a construção de uma rede intersetorial.
Errada, porque integralidade e rede intersetorial são marcas de um cuidado em saúde mais amplo, enquanto o biomédico é mais centrado na doença e na especialização.
- C)considera que os diferentes usos de drogas configuram em si uma patologia, necessitando dos saberes dos especialistas.
Certa, porque o paradigma biomédico tende a tratar o uso de drogas como patologia e a privilegiar a intervenção de especialistas.
- D)explica os diversos fatores que incidem no uso e abuso de álcool e outras drogas, priorizando os determinantes sociais da saúde.
Errada, porque priorizar determinantes sociais da saúde afasta a explicação biomédica e aproxima a análise social e contextual do uso de drogas.
- E)tende a enfatizar as tecnologias duras de cuidado, sobretudo as internações hospitalares, baseando-se na lógica da redução de danos.
Errada, porque redução de danos não é base da lógica biomédica; além disso, a ênfase em internação hospitalar como resposta principal é uma visão restritiva e não a essência desse paradigma.
Gabarito: C
O paradigma biomédico olha o uso de drogas principalmente como doença, desvio ou disfunção do organismo. Nesse modelo, o foco recai no diagnóstico, na classificação do transtorno e na intervenção de especialistas, como médico e equipe técnica, como se o problema estivesse quase todo dentro do indivíduo. É uma visão mais centrada na patologia do que na história de vida, no contexto social e nas relações da pessoa. No campo das drogas, o Conselho Federal de Psicologia critica justamente essa lente, porque ela tende a reduzir um fenômeno complexo a um rótulo clínico. Em vez de perguntar só "qual é o transtorno?", a abordagem crítica também pergunta "que contexto produziu esse uso?", "que sofrimento está em jogo?" e "que rede de cuidado faz sentido?". A ideia é sair da lógica simplista de que todo uso já é, por si, doença. Por isso, a alternativa C está correta: ela expressa exatamente a visão biomédica ao considerar que os diferentes usos de drogas configuram uma patologia e que a solução depende do saber especializado. Esse é o ponto central do modelo criticado pelo CFP em 2019. As demais alternativas descrevem uma abordagem ampliada, psicossocial e intersetorial, que valoriza determinantes sociais, integralidade, rede de cuidado e redução de danos, ou seja, quase o oposto da lógica biomédica tradicional.