Em um bairro de alta vulnerabilidade social de São Paulo, os atendimentos realizados pela Atenção Básica em Saúde têm sido caracterizados por frequentes demandas de medicalização do sofrimento mental das mulheres, em grande parte marcadas pela sobrecarga de cuidado junto às suas famílias e/ou situações diversas de violações de direitos, denotando as fortes disparidades de gênero ainda presentes na sociedade brasileira. Ao atuar nesse cenário da Atenção Básica em Saúde, o psicólogo deverá:
- A)ter uma linha de trabalho fundamentada na lógica curativaindividualista, atendendo clinicamente as mulheres que o requisitarem;
Errada, porque aposta numa lógica curativa e individualista, incompatível com a complexidade social do sofrimento apresentado e com a atuação ampliada na Atenção Básica.
- B)apoiar a criação de grupos sob sua coordenação que possam aconselhar as mulheres em relação às condutas corretas no exercício do cuidado familiar;
Errada, porque transforma o grupo em espaço de aconselhamento normativo, em vez de construção coletiva de autonomia, escuta e fortalecimento de direitos.
- C)valorizar o saber médico, diagnosticando as mulheres em sofrimento mental grave a fim de encaminhá-las para a Atenção Especializada em Saúde;
Errada, porque reforça a centralidade do diagnóstico e do saber médico, reduzindo o psicólogo a mero encaminhador para a especialidade.
- D)construir um lócus de atuação a partir da interconexão com outros saberes e com a comunidade, possibilitando enfrentamentos coletivos das questões;
Certa, porque propõe atuação integrada com outros saberes e com a comunidade, favorecendo respostas coletivas e intersetoriais para problemas produzidos socialmente.
- E)fortalecer a psicologia enquanto área especializada da saúde mental, prescindindo do aporte assistencial dos demais trabalhadores da saúde.
Errada, porque isola a psicologia e ignora o trabalho em rede, que é justamente o que sustenta o cuidado integral na saúde pública.
Gabarito: D
Nesta questão, a chave é lembrar que a Atenção Básica em Saúde não serve para reduzir sofrimento social complexo a receita de remédio ou a atendimento isolado no consultório. Quando há sofrimento mental ligado a sobrecarga de cuidado, violência, desigualdade de gênero e violações de direitos, o trabalho do psicólogo precisa ser territorial, interdisciplinar e articulado com a rede de proteção. Isso conversa diretamente com os princípios do SUS e da Atenção Primária, como integralidade, intersetorialidade e trabalho em equipe. Na prática, isso significa sair da lógica de "cada um no seu quadrado" e construir respostas com outros profissionais, equipamentos da rede e a própria comunidade. O psicólogo não deve atuar como salvador solitário nem como quem apenas etiqueta sintomas; deve ajudar a compreender o contexto, ampliar vínculos, fortalecer autonomia e produzir cuidado compartilhado. Em políticas públicas, o sofrimento não é só do indivíduo, é também efeito de relações sociais e de desigualdades concretas. Por isso o gabarito é a letra D: ela descreve exatamente um lócus de atuação construído na interconexão com outros saberes e com a comunidade, permitindo enfrentamentos coletivos das questões. Essa é a lógica esperada na Saúde da Família e na Rede de Atenção Psicossocial, com cuidado em rede, matriciamento, ações coletivas e promoção de saúde, e não apenas atendimento clínico fragmentado. As demais alternativas escorregam para modelos que a política pública tenta superar: medicalização, moralização do cuidado, centralidade exclusiva do diagnóstico e isolamento da psicologia como se ela pudesse dar conta sozinha de tudo. Em resumo: diante de sofrimento produzido e agravado por contexto social, a resposta boa é coletiva, territorial e intersetorial.