Segundo o Conselho Federal de Psicologia (2019), a dimensão ética do trabalho do psicólogo na Atenção Básica envolve o reconhecimento do sofrimento ético-político originado nas históricas desigualdades sociais, compreendendo os marcadores sociais da diferença. Com relação à ética do trabalho da psicologia na Atenção Básica, assinale a afirmativa correta:
- A)o sentimento de vergonha e humilhação leva ao silenciamento de sofrimentos pessoais, sendo fundamental o encaminhamento para a atenção especializada;
Errada, porque a Atenção Básica não deve reduzir o sofrimento a encaminhamento automático para a atenção especializada.
- B)as relações de desigualdade de gênero têm primazia sobre as relações de classe e raça, tendo como sintoma a medicalização das mulheres;
Errada, porque não existe primazia fixa de gênero sobre classe e raça; os marcadores sociais se articulam de forma interseccional.
- C)o sofrimento ético-político é permeado por situações de violações de direito, tornando a judicialização o principal recurso de trabalho do psicólogo;
Errada, porque a judicialização não é o principal recurso do psicólogo na Atenção Básica, mas apenas uma possibilidade em situações específicas.
- D)o trabalho da(o) psicóloga(o) considera a dor advinda das injustiças sociais, ofertando a psicoterapia como forma prioritária de cuidado;
Errada, porque a psicoterapia não é a forma prioritária e exclusiva de cuidado na Atenção Básica, que exige ações territoriais e articuladas em rede.
- E)as relações de exclusão influenciam o processo de adoecimento, bem como de promoção de saúde, sendo um ethos a ser transformado por práticas de cuidado territorializadas.
Certa, porque reconhece que exclusão social impacta adoecimento e saúde, exigindo práticas de cuidado territorializadas e transformadoras.
Gabarito: E
Na Atenção Básica, a atuação do psicólogo não se limita a “tratar sintomas” como se o sofrimento viesse do nada. O CFP, em diretrizes sobre a prática na Atenção Básica, destaca que é preciso enxergar o sofrimento ético-político: aquele que nasce de desigualdades históricas, como pobreza, racismo, sexismo e exclusão social. Em outras palavras, a dor não está só dentro da pessoa, mas também nas condições de vida que a cercam. Por isso, a ética do trabalho em Psicologia na Atenção Básica pede cuidado territorializado, articulado com a rede e sensível aos marcadores sociais da diferença. O foco é promover saúde e ampliar acesso, não transformar todo sofrimento em caso para clínica individual ou para encaminhamento automático. A ideia é trabalhar no território, com ações de prevenção, escuta qualificada, fortalecimento de vínculos e enfrentamento das vulnerabilidades sociais. O gabarito é a letra E porque ela reconhece exatamente essa lógica: as relações de exclusão influenciam o adoecimento e também a promoção de saúde, e isso deve ser transformado por práticas de cuidado no território. Essa formulação combina com a atuação ética na Atenção Básica, que considera o contexto social como parte central do cuidado. Já as demais alternativas escorregam para reducionismos: ou empurram o caso para especialidade, ou tratam um marcador social como mais importante que os demais, ou ainda fazem da judicialização ou da psicoterapia o centro da resposta. Na Atenção Básica, o mapa é mais amplo e a bússola é o território.