De acordo a leitura estrutural de J. Lacan, o sujeito perverso adere a uma convicção contraditória em relação à castração: ele provê imaginariamente o Outro materno com o objeto fálico, neutralizando, assim, a falta simbólica e o real da diferença dos sexos. Trata-se do mecanismo de
- A)desmentido.
Correta: o desmentido envolve reconhecer a castração e, ao mesmo tempo, negá-la imaginariamente, como na estrutura perversa descrita por Lacan.
- B)forclusão.
Errada: a forclusão é o mecanismo ligado à psicose, com rejeição do significante da castração para fora do simbólico.
- C)recalque.
Errada: o recalque é típico da neurose e consiste em expulsar representações da consciência, não em negar e sustentar simultaneamente a castração.
- D)sublimação.
Errada: a sublimação desloca a pulsão para fins socialmente aceitos, sem a lógica de negação da falta presente no enunciado.
- E)formação de caráter.
Errada: formação de caráter não é o mecanismo psicanalítico que descreve essa relação contraditória com a castração.
Gabarito: A
Na leitura estrutural de Lacan, a perversão não é entendida como simples "maldade" ou desvio moral, mas como uma forma específica de relação do sujeito com a castração. O ponto central é que o perverso não aceita a falta simbólica como limite e, em vez disso, tenta tapá-la imaginariamente, como se pudesse completar o Outro materno com o objeto fálico. É quase uma encenação de reparo: "não falta nada, eu dou conta". Esse movimento corresponde ao desmentido (Verleugnung): o sujeito reconhece a castração em algum nível, mas ao mesmo tempo a nega e age como se ela não valesse. Ou seja, há uma convivência contraditória entre saber e negar. Essa duplicidade é clássica na perversão, especialmente na forma como o sujeito sustenta a fantasia de que o Outro pode ser completado. Por isso o gabarito é a letra A. A questão descreve exatamente a lógica do desmentido: a castração é percebida, mas sua consequência simbólica é recusada, e o objeto fálico é oferecido imaginariamente ao Outro para neutralizar a falta. Em termos freudianos, a desmentida é muito associada ao fetichismo, e Lacan a lê como uma posição estruturante da perversão. Para não confundir: recalque é o mecanismo típico das neuroses, forclusão é o mecanismo central da psicose, e sublimação é outro caminho, bem diferente, de transformação da pulsão em algo socialmente valorizado. Aqui a questão quer exatamente a defesa contraditória que nega e reconhece ao mesmo tempo.