Com relação ao fenômeno da violência conjugal avalie se as afirmativas estão corretas. I. Deixou de ser considerado restrito ao âmbito privado para ser compreendido como um grave problema de saúde pública. II. Mulheres que presenciaram violência conjugal entre seus pais na infância tendem a desenvolver maior autoculpabilização se forem vítimas de agressões pelos parceiros, indicando uma perspectiva transgeracional da violência. III. Embora homens heterossexuais tenham mais dificuldade em confessar a violência sofrida pela parceira, estatísticas indicam que eles também sofrem violência conjugal. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A alternativa sustenta que apenas a afirmação I seria correta, isto é, que a violência conjugal deixou de ser vista como assunto privado e passou a ser tratada como problema de saúde pública. Esse conteúdo procede, porque a literatura e as políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica e familiar a reconhecem como questão de saúde pública e de direitos humanos. O equívoco está em restringir demais a resposta, já que também há fundamento técnico para as afirmações II e III.
- B)II, apenas.
A alternativa afirma que somente a ideia de transmissão transgeracional da violência, descrita na afirmação II, estaria correta. O conteúdo é consistente: a criança que testemunha violência entre os pais pode internalizar padrões relacionais abusivos e, no futuro, apresentar maior autoculpabilização quando sofre agressões do parceiro. A falha está em desconsiderar que as afirmações I e III também correspondem ao entendimento consolidado sobre o tema.
- C)III, apenas.
A alternativa toma como correta apenas a afirmação III, segundo a qual homens heterossexuais também podem sofrer violência conjugal, embora muitas vezes ocultem o fato por vergonha e por normas de masculinidade. Esse raciocínio está correto, porque a violência no casal não atinge exclusivamente mulheres e a subnotificação masculina é um dado recorrente na literatura. Ainda assim, a resposta fica incompleta porque as afirmações I e II também são verdadeiras.
- D)I e II, apenas
A alternativa reúne a afirmação I, sobre a violência conjugal ter ultrapassado a esfera privada e sido reconhecida como problema de saúde pública, e a afirmação II, sobre os efeitos transgeracionais do testemunho de violência na infância. As duas ideias são corretas, pois a violência doméstica é tratada como tema de saúde pública e a exposição precoce pode favorecer autoculpabilização, naturalização da agressão e repetição de padrões. O problema é excluir a afirmação III, já que a vitimização masculina no contexto conjugal também é reconhecida pelas estatísticas e pela psicologia social.
- E)I, II e III.
A alternativa reúne corretamente as três proposições. A violência conjugal foi incorporada ao debate de saúde pública, a vivência infantil de violência entre os pais pode gerar autoculpabilização e indicar transmissão transgeracional, e homens também podem ser vítimas, embora costumem relatar menos por pressão social e subnotificação. Por isso, o conjunto I, II e III está adequado.
Gabarito: E
A violência conjugal deixou faz tempo de ser vista como “assunto de casal” fechado dentro de casa. Hoje ela é tratada como um grave problema social e de saúde pública, porque atinge a dignidade, a integridade física e psicológica da vítima e gera impacto para toda a rede de proteção e de saúde. Na prática, isso conversa com a ideia de enfrentamento pela Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), que reconhece a violência doméstica e familiar como violação de direitos humanos. A afirmativa II também está correta. Quem cresceu assistindo violência entre os pais pode internalizar esse padrão como algo “normal” ou inevitável, e isso pode aumentar culpa, tolerância ao abuso e dificuldade de romper o ciclo. É a famosa lógica transgeracional: a violência não nasce do nada, ela muitas vezes é aprendida, reproduzida e naturalizada ao longo das relações familiares. A afirmativa III igualmente está certa. Embora exista um forte subregistro, homens heterossexuais também podem sofrer violência conjugal e, muitas vezes, têm mais vergonha, medo de ridicularização ou dificuldade de pedir ajuda. Isso não apaga a assimetria histórica da violência contra a mulher, mas mostra que o fenômeno é mais amplo do que o senso comum costuma admitir. Por isso, o gabarito é a alternativa E, porque as três afirmativas estão corretas. Em prova de Psicologia Jurídica, a banca adora cobrar justamente essa visão mais atual: violência conjugal não é detalhe privado, é questão pública, relacional e intergeracional.