O abandono da teoria da sedução por parte de Freud e a importância dada à fantasia e à realidade psíquica fez com que, na psicanálise, a concepção de infantil ficasse associada ao campo da perversão polimorfa e se destacasse de uma perspectiva meramente evolutiva da infância. Contudo, a partir do último dualismo pulsional introduzido em 1920, o infantil pode ser interpretado não apenas à luz do princípio do prazer, mas também por intermédio
- A)do narcisismo e da autoconservação.
Errada, porque narcisismo e autoconservação não expressam o eixo central do último dualismo pulsional para explicar o infantil após 1920.
- B)das pulsões do ego e da libido objetal.
Errada, porque pulsões do ego e libido objetal pertencem a outra forma de organizar a teoria pulsional, não ao recorte pedido pela questão.
- C)da repetição da pulsão de morte e do trauma.
Certa, porque o último dualismo pulsional permite pensar o infantil também pela repetição, pela pulsão de morte e pela dimensão traumática.
- D)do princípio de realidade e do recalcamento.
Errada, porque princípio de realidade e recalcamento são conceitos importantes, mas não respondem ao ponto específico da virada pulsional de 1920.
- E)das fases libidinais do desenvolvimento psicossexual.
Errada, porque as fases libidinais do desenvolvimento psicossexual explicam outra dimensão do infantil, ligada à evolução da libido, e não ao novo dualismo pulsional.
Gabarito: C
A questão gira em torno de uma virada importante em Freud. No começo, ele pensava a infância muito ligada à sedução e ao acontecimento externo; depois, ao valorizar a fantasia e a realidade psíquica, o infantil deixa de ser visto só como uma etapa do desenvolvimento e passa a aparecer como algo mais profundo, ligado às marcas inconscientes da sexualidade infantil e da perversão polimorfa. Ou seja, a criança não é apenas um adulto em miniatura indo por fases: ela também é um campo de conflitos psíquicos próprios. O ponto-chave vem em 1920, com o último dualismo pulsional. Freud passa a pensar a vida psíquica a partir da tensão entre pulsões de vida e pulsão de morte. Aí o infantil pode ser lido não apenas pelo prazer e pela busca de satisfação, mas também pela repetição, pela compulsão a repetir e pela dimensão traumática que insiste no psiquismo. Por isso, a alternativa C é a correta: ela traz justamente a repetição ligada à pulsão de morte e ao trauma. Essa leitura combina com a virada freudiana em Além do Princípio do Prazer, quando a repetição aparece como algo que não cabe totalmente na lógica do prazer e aponta para uma força mais silenciosa e incômoda do aparelho psíquico. Em resumo: antes, o infantil era pensado mais pela sexualidade infantil e pela fantasia; depois de 1920, ele também passa a ser entendido pela repetição traumática e pela pulsão de morte. Freud, como sempre, não deixa a infância em paz.