Para Sándor Ferenczi, psicanalista contemporâneo e amigo de Sigmund Freud, o trauma torna-se patogênico para a criança em pelo menos dois momentos. No primeiro, a criança sofre a experiência traumática oriunda das atitudes passionais do adulto, como se observa em pais que abusam sexualmente de seus filhos ou os tratam com violência desmedida. Por sua vez, tal experiência se torna ainda mais traumática e patológica para a criança quando ela busca ajuda em outro adulto que lhe inspira confiança e a reconhece como protetora, que, no entanto, realiza o que Ferenczi define como
- A)desmentido.
Correta, porque desmentido é a negação ou invalidação da experiência da criança por um adulto em quem ela confiava.
- B)recalque.
Errada, porque recalque é um mecanismo intrapsíquico de afastamento de conteúdos da consciência, não a negação externa do relato da vítima.
- C)foraclusão.
Errada, porque foraclusão é a exclusão radical de um significante, conceito associado a Lacan, e não ao comportamento descrito por Ferenczi.
- D)sublimação.
Errada, porque sublimação é o desvio de pulsões para fins socialmente valorizados, sem relação com a invalidacão do trauma.
- E)deslocamento.
Errada, porque deslocamento é a transferência de um afeto de um objeto para outro, e não a negação da realidade sofrida pela criança.
Gabarito: A
Ferenczi chamou atenção para um ponto muito importante na clínica do trauma infantil: nem sempre o dano vem só do ato violento em si. Muitas vezes, ele piora quando a criança tenta contar o que viveu e encontra um adulto em quem confia, mas esse adulto não valida sua experiência, minimiza, nega ou trata como se nada tivesse acontecido. Aí o sofrimento ganha uma segunda camada: além da violência, vem a quebra da confiança e a sensação de abandono psíquico. É justamente esse segundo movimento que a questão descreve. Depois da experiência traumática inicial com o adulto agressor, a criança busca um outro adulto protetor. Se esse adulto faz o que Ferenczi chamou de desmentido, ele invalida a percepção da criança, como se sua dor, seu relato ou a realidade do abuso não fossem dignos de crédito. Isso é muito mais destrutivo do que simples silêncio, porque atinge a capacidade da criança de confiar no próprio sentido de realidade. Por isso o gabarito é a letra A. Em Ferenczi, o desmentido tem peso central porque a criança precisa de reconhecimento e acolhimento para elaborar o trauma. Quando recebe negação, a experiência fica sem simbolização adequada e tende a se fixar de forma patológica. As outras alternativas vêm de outros conceitos psicanalíticos e não descrevem essa cena: recalque, foraclusão, sublimação e deslocamento não correspondem ao ato de um adulto que invalida o sofrimento infantil depois da revelação do trauma.