Encontramos, no contexto brasileiro, desde a década de 1980, uma psicologia social que afirma historicamente um compromisso ético e político com a transformação social, renunciando a um viés pragmático e investindo nas singularidades segregadas do campo social. De onde a importância do método cartográfico, remetido inicialmente ao pensamento de Deleuze e Guattari, que se refere a um mapa a ser produzido e modificável a partir de múltiplas linhas de fuga. Nesse contexto, a intervenção psicológica com base na cartografia é um movimento ligado à subjetivação que implica
- A)a inquirição e a produção de provas que demonstrem a ocorrência de um fato pretérito.
Errada, porque fala em inquirição e prova de fato pretérito, o que remete a lógica investigativa/jurídica, não à cartografia como intervenção subjetivante.
- B)a coleta de dados e informações apriorísticos, capazes de traduzir a totalidade real da experiência vivida.
Errada, porque pressupõe dados apriorísticos capazes de traduzir a totalidade da experiência, enquanto a cartografia trabalha com processo, abertura e construção no percurso.
- C)a criação de brechas capazes de engendrar novas configurações de pensamento e de experiências.
Certa, porque a cartografia busca abrir brechas e criar novas formas de pensamento e experiência, acompanhando a produção de subjetividade.
- D)a subtração das variações e modulações dos enunciados para atingir a correspondência fiel da linguagem com a ordem das coisas.
Errada, porque propõe subtrair variações para chegar a uma correspondência fiel entre linguagem e coisas, visão oposta à fluidez e às variações valorizadas pela cartografia.
- E)a representação que os indivíduos fazem de objetos ou sentimentos, com ênfase nos componentes linguísticos lexicais e sintáticos da frase.
Errada, porque reduz a análise à representação linguística de objetos e sentimentos, o que não expressa o caráter ético-político e processual da intervenção cartográfica.
Gabarito: C
A questão gira em torno da psicologia social brasileira de inspiração crítica, muito ligada à ideia de intervenção como produção de subjetividade, e não como simples diagnóstico ou ajuste do sujeito. Nessa linha, a cartografia, associada a Deleuze e Guattari, não é um mapa pronto e fechado: ela acompanha processos vivos, mudanças, tensões e linhas de fuga que vão aparecendo no caminho. Em vez de buscar uma verdade fixa, universal e “pronta para uso”, a cartografia aposta no acompanhamento do território existencial enquanto ele se transforma. Ou seja, o psicólogo não entra para congelar a realidade, mas para perceber como ela se organiza, se desorganiza e pode ser reinventada. É uma postura muito coerente com a psicologia social crítica brasileira, que valoriza a singularidade e a dimensão política da intervenção. Por isso, o gabarito é a letra C. A intervenção psicológica baseada na cartografia implica criar brechas, abrir passagem para o novo, favorecer deslocamentos de pensamento e de experiência. Em resumo: a cartografia não quer apenas descrever o mundo, ela ajuda a produzir outros modos de viver e de se subjetivar. As demais alternativas tentam puxar a questão para lógica investigativa clássica, positivista ou linguística, mas aí já sai da proposta cartográfica. Aqui, o foco é processo, invenção e transformação, não prova, retrato fiel da realidade ou análise formal da linguagem.