O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro emitiu nota técnica, em 11/12/2023, em que recomenda que psicólogos e psicólogas não utilizem o termo “menor” ao se referir a crianças e adolescentes. Essa iniciativa encontra eco nas reflexões sobre uma realidade mais inclusiva e justa para a infância e a adolescência brasileiras, principalmente se lembrarmos que celebramos o centenário da criação da Justiça da Infância no Brasil em 2023. Na história das práticas da Psicologia no Brasil, é correto afirmar que
- A)a psicologia se constituiu enquanto discurso dependente do campo sociopolítico na sociedade brasileira.
Certa: a Psicologia no Brasil se formou em diálogo com demandas sociais, políticas e institucionais, e não como saber neutro e isolado.
- B)o conhecimento psicológico representa a verdade sobre o sujeito humano.
Errada: o conhecimento psicológico não é a verdade absoluta sobre o sujeito humano, mas uma construção histórica e científica sujeita a limites e revisões.
- C)as práticas psicológicas sempre foram críticas e inclusivas na sociedade brasileira.
Errada: as práticas psicológicas nem sempre foram críticas e inclusivas, pois também serviram a projetos de controle, classificação e exclusão.
- D)a atuação com menores abrigados refletiu o cuidado dos profissionais “psi” desde o início.
Errada: o atendimento a crianças e adolescentes institucionalizados muitas vezes esteve ligado a tutela e segregação, não a um cuidado desde o início.
- E)a potencialização de menores infratores é uma das atuações mais antigas da Psicologia no Brasil.
Errada: a ideia de “menores infratores” remete a uma lógica histórica de controle e estigmatização, não a uma atuação antiga e positiva da Psicologia.
Gabarito: A
A história da Psicologia no Brasil não pode ser lida como algo neutro, isolado ou “puro”. Ela nasce e se desenvolve junto com demandas sociais, políticas e institucionais, como a escola, a Justiça, a saúde e a assistência, especialmente quando o Estado passou a organizar práticas de controle, classificação e intervenção sobre grupos vistos como vulneráveis. Em outras palavras, a Psicologia foi se consolidando no meio do jogo social, respondendo a interesses e conflitos concretos da sociedade brasileira. Por isso, faz sentido dizer que a Psicologia se constituiu como um discurso dependente do campo sociopolítico. O saber psicológico não surgiu no vácuo: ele foi moldado por projetos de modernização, higienismo, medicalização e pela forma como o país passou a tratar infância, adolescência, desvios e pobreza. Quando a questão lembra a Justiça da Infância e o uso do termo “menor”, ela está justamente cutucando essa tradição histórica de olhar para crianças e adolescentes a partir de categorias sociais e jurídicas marcadas por desigualdade. A banca gosta muito desse ponto: a Psicologia, no Brasil, não foi sempre inclusiva nem crítica. Em vários momentos, ela ajudou a legitimar práticas de classificação e segregação, especialmente em contextos ligados à infância pobre e ao chamado “menorismo”. Só mais tarde o campo passou a revisitar criticamente essas práticas, em diálogo com o ECA (Lei 8.069/1990), com a proteção integral e com uma visão de direitos. Então, o gabarito A está correto porque reconhece essa origem histórica vinculada ao contexto sociopolítico brasileiro. As demais alternativas exageram, romantizam ou distorcem a trajetória da área, como se o saber psicológico fosse absoluto, sempre crítico ou naturalmente protetor, e a história mostra exatamente o contrário.