Janaína Cayubi mora na Aldeia Capanema em meio a centro urbano no interior do Brasil e passou a apresentar sintomas de sofrimento mental. A(o) psicóloga(o) atuante nas políticas públicas para os povos indígenas deve: I. despir-se de preconceitos eurocêntricos, conhecendo e respeitando múltiplos modos de viver e conviver das diferentes etnias do território brasileiro, buscando acolher as especificidades das formas de lidar com as emoções e demais processos psicológicos; II. compreender qual concepção está em jogo no cotidiano comunitário/ coletivo, em uma escuta dos territórios, ampliando a própria noção de sistema de garantia de direitos; III. estudar a natureza humana a partir das pesquisas desenvolvidas pela ciência psicológica ao longo dos séculos, pois os indígenas são seres humanos como os demais, não havendo distinção na forma como vivenciam o sofrimento mental. Está correto o que se afirma em:
- A)somente I;
Errada, porque o item I está correto e não pode ser descartado sozinho.
- B)somente II;
Errada, porque o item II também está correto e faz parte da atuação adequada em políticas públicas indígenas.
- C)somente III;
Errada, porque o item III é incorreto ao apagar as diferenças culturais na vivência do sofrimento mental.
- D)somente I e II;
Certa, porque os itens I e II traduzem uma atuação intercultural e territorializada, enquanto o item III generaliza indevidamente.
- E)I, II e III.
Errada, porque o item III não está correto; a abordagem não pode negar as especificidades culturais dos povos indígenas.
Gabarito: D
A atuação da psicologia nas políticas públicas voltadas aos povos indígenas exige muito mais do que aplicar uma receita pronta. Você precisa considerar a diversidade cultural, linguística e histórica de cada povo, sem impor automaticamente conceitos eurocêntricos de saúde, família, sofrimento e cura. Em outras palavras, não dá para olhar para a aldeia com o mesmo óculos que você usaria em contexto urbano comum. O item I está correto porque fala justamente em se despir de preconceitos e respeitar múltiplos modos de viver e de lidar com emoções e processos psíquicos. Isso conversa com a diretriz de atuação intercultural e com o respeito à organização social, costumes, línguas, crenças e tradições dos povos indígenas, como reconhecido na Constituição Federal de 1988 e na Convenção 169 da OIT. O item II também está correto. A escuta precisa considerar o território e o coletivo, porque o sofrimento não é vivenciado apenas como experiência individual isolada. Em políticas públicas, especialmente no campo indígena, a análise do cotidiano comunitário amplia a compreensão de cuidado e de direitos, fugindo de uma visão estreita e puramente individualizante. Já o item III escorrega bonito. Ele tenta parecer inclusivo, mas cai numa generalização: dizer que não há distinção na forma como os indígenas vivenciam o sofrimento mental ignora a pluralidade cultural e reforça uma ideia universalizante que a própria psicologia social e a psicologia indígena criticam. Por isso, o gabarito é D, pois apenas I e II estão corretos.