A violência é um componente que faz parte da história de vida de muitas mulheres, ocorrendo desde a infância por parte de familiares, especialmente do sexo masculino, e posteriormente sendo reeditada pelo companheiro. Trata-se de algo proveniente do patriarcado que visa dominar e explorar as mulheres. Nesse contexto de atuação do psicólogo em programas de atenção à mulher em situação de violência, é correto afirmar que:
- A)a atuação deve ser focada no resgate da autoestima individual da mulher vítima de violência;
Errada, porque reduz a atuação a um trabalho individual de autoestima, ignorando o caráter social, relacional e institucional da violência.
- B)a violência contra a mulher é um fenômeno complexo e multifacetado e que exige compreensão e intervenção multidisciplinares;
Certa, porque a violência contra a mulher é complexa e exige intervenção articulada entre diferentes áreas e serviços.
- C)a rede de enfrentamento à violência contra as mulheres e a rede de atendimento devem ser vistas como dispositivos idênticos;
Errada, porque rede de enfrentamento e rede de atendimento não são sinônimos: a primeira é mais ampla e envolve articulação política e institucional, enquanto a segunda foca os serviços diretos.
- D)deve-se oferecer assistência apenas mediante denúncia formal, ou seja, a partir da representação formal da queixa de violência;
Errada, porque a assistência e a proteção não dependem apenas de denúncia formal; a atuação pode e deve ocorrer diante da situação de risco e da demanda apresentada.
- E)o modelo mais adequado para o enfrentamento da violência contra a mulher é o da clínica, possibilitando-lhe ultrapassar os conflitos intrapsíquicos que a vitimizam.
Errada, porque privilegia uma visão exclusivamente clínica e intrapsíquica, inadequada para um problema estruturado por violência de gênero e desigualdade social.
Gabarito: B
A atuação do psicólogo em programas de atenção à mulher em situação de violência não pode ser reduzida a uma visão individualizante, como se tudo se resolvesse apenas com “fortalecer a autoestima” da vítima. A violência contra a mulher é um fenômeno social, histórico e relacional, ligado a desigualdades de gênero, ao patriarcado e a múltiplos fatores que se cruzam na vida da mulher. Por isso, o atendimento precisa olhar para a pessoa, mas também para a rede, o contexto e os riscos concretos envolvidos. Na prática, isso significa trabalhar de forma articulada com saúde, assistência social, segurança pública, justiça e outros serviços. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) organiza justamente essa lógica de enfrentamento e atendimento em rede, com medidas de proteção e serviços especializados. A doutrina em Psicologia Jurídica também reforça que a violência de gênero exige resposta interdisciplinar, e não uma atuação isolada, como se fosse apenas um conflito interno da mulher. É por isso que o item B está correto: a violência contra a mulher é complexa e multifacetada, então a intervenção precisa ser multidisciplinar. O psicólogo pode acolher, escutar, avaliar riscos, fortalecer a autonomia e contribuir com a rede, mas sem transformar o problema em algo exclusivamente “psicológico” ou culpabilizar a vítima. Em casos assim, a escuta qualificada é importante, mas sozinha não dá conta do tamanho da situação. As outras alternativas escorregam justamente nesse ponto: umas reduzem tudo à clínica individual, outras confundem rede de enfrentamento com rede de atendimento, e há ainda a ideia errada de exigir denúncia formal para só então agir. Em violência doméstica, a proteção não pode depender de uma lógica burocrática fria; a atuação deve ser protetiva, articulada e sensível à realidade da mulher.