A descoberta do inconsciente por Freud provocou uma verdadeira revolução copernicana no campo do pensamento, tendo impacto em diversas áreas, entre as quais, a criminologia. Ao analisar alguns tipos de caráter, ele articula de forma bastante original a relação entre o ato criminoso e a culpa, ou seja, Freud sugere que esse sentimento
- A)sucede naturalmente ao ato transgressor.
Errada, porque em Freud a culpa nem sempre sucede o ato transgressor; em certos casos, ela vem antes e impulsiona a conduta.
- B)é oriundo das pressões do Id sobre o Ego.
Errada, porque a culpa não é explicada aqui como resultado direto da pressão do Id sobre o Ego, mas como algo que pode anteceder o ato e se ligar ao superego.
- C)ocorre em sujeitos neuróticos e não em criminosos natos.
Errada, porque Freud não restringe esse fenômeno aos neuróticos nem o opõe de forma simples aos criminosos natos; a questão trata de outra articulação entre culpa e delito.
- D)precede o ato, ao passo que a punição tem a tarefa de expiá-lo.
Certa, porque expressa a ideia freudiana de que a culpa pode preceder o ato criminoso e a punição funciona como expiação desse sentimento.
- E)é uma herança coletiva diante da qual o sujeito não tem responsabilidade sobre os seus atos.
Errada, porque a psicanálise freudiana não trata a culpa como mera herança coletiva sem responsabilidade subjetiva; há conflito psíquico e implicação do sujeito no ato.
Gabarito: D
Freud mexe com a ideia clássica de que a culpa vem depois do erro. Em alguns textos, especialmente ao tratar de certos tipos de caráter, ele mostra que há pessoas que carregam uma culpa anterior, quase como uma pressão interna constante, e acabam praticando o ato para dar uma forma concreta a esse sentimento. Parece estranho, mas na lógica psicanalítica isso faz sentido: o crime pode funcionar como uma espécie de “resposta” a uma culpa que já estava lá antes. Por isso, a relação entre crime, culpa e punição não é tão simples quanto “cometeu, sentiu culpa, foi punido”. Em Freud, em alguns casos, o sujeito comete o ato justamente porque já se sente culpado, e a punição entra como tentativa de expiação. Ou seja, a punição ajuda a aliviar uma tensão psíquica preexistente, não apenas a reagir ao delito. É exatamente isso que a alternativa D descreve: o sentimento de culpa precede o ato, e a punição tem a função de expiá-lo. Essa formulação aparece na tradição psicanalítica freudiana sobre o “delinquente por sentimento de culpa” e sobre a criminalidade ligada a conflitos inconscientes. Então, se você lembrar que, para Freud, o inconsciente bagunça a ordem comum das coisas, fica mais fácil: às vezes o sujeito não age e depois se culpa; ele já estava culpado por dentro e age para dar saída a isso. Freud adora essa reviravolta psicológica.