Em “Sobre o início do tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I)” (1913), Freud recomenda fazer um tratamento de ensaio no início do atendimento do paciente, antes da análise propriamente dita, para evitar uma interrupção posterior que possa causar a impressão desagradável de tentativa fracassada de cura. Tal ensaio segue as regras do método analítico e tem também motivação diagnóstica. Seguidor de Freud, Lacan considera esse preâmbulo fundamental, sendo a porta de entrada para a análise propriamente dita. Tal trabalho prévio é chamado por Lacan de:
- A)travessia do fantasma;
Errada, porque travessia do fantasma é um conceito ligado ao processo analítico em seu avanço, e não ao período inicial de preparação.
- B)holding terapêutico;
Errada, porque holding terapêutico é um conceito de Winnicott, referente ao ambiente de sustentação emocional, e não ao preâmbulo lacaniano.
- C)anamnese subjetiva;
Errada, porque anamnese subjetiva não é a expressão teórica usada por Lacan para esse momento inicial do tratamento.
- D)entrevistas preliminares;
Certa, porque entrevistas preliminares é o nome dado por Lacan ao trabalho prévio que antecede a análise propriamente dita.
- E)acolhimento integral da demanda.
Errada, porque acolhimento integral da demanda não é a formulação conceitual de Lacan para essa etapa inicial.
Gabarito: D
Na técnica psicanalítica, Freud recomenda que o início do atendimento não seja uma “corrida de 100 metros”, mas um período de teste, para observar se a condução analítica vai mesmo se sustentar. Esse começo permite avaliar a demanda, a possibilidade de trabalho, a transferência e se há condições mínimas para que a análise aconteça sem interrupção precoce. Em outras palavras: antes de mergulhar no divã, é preciso ver se o paciente e o analista conseguem entrar no jogo analítico. Lacan retoma essa ideia e chama esse momento de entrevistas preliminares. Elas funcionam como um preâmbulo fundamental da análise, uma espécie de porta de entrada em que se escuta a queixa, se recolhe a demanda e se produz uma primeira organização do campo transferencial. Não é ainda a análise propriamente dita, mas também não é um simples atendimento burocrático. É trabalho clínico de verdade, com função diagnóstica e direcional. Por isso o gabarito é a letra D. O termo “entrevistas preliminares” é justamente o nome lacaniano para esse período inicial descrito em Freud em “Sobre o início do tratamento”. A ideia é evitar uma ruptura abrupta depois, que poderia passar a sensação de fracasso terapêutico e mostrar logo de cara que a entrada na análise precisa ser construída com cuidado. Se você lembrar só de uma coisa, guarde esta: para Lacan, antes da análise começar de fato, há um tempo de preparação clínica que organiza o pedido do paciente e verifica se a análise pode, de fato, começar. É esse o famoso preâmbulo.