A reforma psiquiátrica e a desmanicomialização não impediram que certas tecnologias de poder próprias da psiquiatria clássica se reproduzissem nos centros de referência de Saúde Mental, conhecidos no Brasil como CAPS. Busca-se ainda dominar as paixões, os delírios e os maus hábitos por meio do uso de psicofármacos e descobrir dados nas condutas passadas que apontam para comportamentos ou reações anormais. Portanto, as estratégias de poder utilizadas classicamente pela psiquiatria não se limitam às instituições fechadas, pois são praticadas toda vez que a intervenção terapêutica reitera duas velhas estratégias do saber psiquiátrico do século XIX, a saber,
- A)a terapia e a conversão.
Errada: terapia é parte do cuidado em saúde mental, mas não corresponde às duas estratégias clássicas mencionadas no enunciado.
- B)a repressão e o encarceramento.
Errada: repressão e encarceramento remetem ao modelo asilar, mas o texto pede outras tecnologias psiquiátricas do século XIX.
- C)a nosologia médica e a produtividade.
Errada: nosologia médica é classificação de doenças, mas produtividade não é a dupla histórica descrita no trecho.
- D)o uso de drogas e o interrogatório.
Certa: a psiquiatria clássica também operava por meio do uso de drogas e do interrogatório para conter e normalizar condutas.
- E)a culpabilização e o isolamento.
Errada: culpabilização e isolamento podem aparecer em práticas de exclusão, mas não são as duas estratégias citadas no enunciado.
Gabarito: D
A questão cobra uma leitura crítica da reforma psiquiátrica: ela reduziu o modelo asilar, mas não apagou automaticamente certas formas de controle herdadas da psiquiatria clássica. Em vez de muros visíveis, algumas práticas passaram a circular em serviços comunitários, como os CAPS, quando a intervenção terapêutica continua tentando enquadrar o sujeito por meio do diagnóstico, da vigilância do comportamento e do controle medicamentoso. No século XIX, a psiquiatria não atuava apenas com internação. Ela também recorria a duas estratégias bem típicas: administrar substâncias para conter, ordenar ou normalizar o comportamento e interrogar o paciente, colhendo dados sobre sua história e suas condutas para identificar sinais de anormalidade. Em outras palavras, não era só trancar; era também medicar e sondar. Por isso, a alternativa D está correta: o enunciado descreve exatamente a repetição dessas duas velhas técnicas, o uso de drogas e o interrogatório. A lógica da questão é mostrar que certas tecnologias de poder podem sobreviver fora do hospital psiquiátrico tradicional, reaparecendo em práticas de cuidado que, em tese, deveriam ser mais abertas e libertárias. Esse tipo de leitura dialoga com a crítica foucaultiana da psiquiatria como dispositivo de saber-poder: o controle não depende apenas de grades, mas também de discursos, classificações e intervenções que produzem normalização. É a velha história do poder mudando de roupa, mas não de hábito.