Uma das formas de manejo da entrevista psicológica é o uso do método cartográfico formulado por Deleuze e Guattari como um dos princípios do rizoma. A cartografia refere-se a um mapa que a ser produzido e que é modificável a partir de múltiplas linhas de fuga, voltando-se para um campo de experimentação que teve forte influência para a analítica institucional. Nesse contexto, a entrevista psicológica
- A)visa a coletar dados e informações relativos a referentes pré-definidos, sendo estes capazes de traduzir a totalidade real da experiência vivida.
Errada, porque reduz a entrevista a coleta de dados pré-definidos e a uma suposta totalidade da experiência, o que contraria a abertura da cartografia.
- B)prioriza a experiência produzida na própria fala a fim de promover sua abertura às variações que impeçam seu fechamento em perspectivas totalizantes.
Certa, pois valoriza a fala como produção de experiência e mantém a entrevista aberta às variações e aos deslocamentos do processo.
- C)busca a representação que os entrevistados fazem de objetos ou estado de coisas, com ênfase nos componentes linguísticos lexicais e sintáticos da frase.
Errada, porque descreve uma abordagem centrada na representação linguística e na análise de frases, não na cartografia da experiência.
- D)elimina as variações de expressão e as modulações dos enunciados para atingir a correspondência fiel da linguagem com a ordem do mundo.
Errada, pois defende eliminar variações e modulações, justamente o oposto da lógica cartográfica de acompanhar movimentos e diferenças.
- E)contribui para o processo de inquirição, produzindo provas que fundamentam ou comprovam um determinado fato ou acontecimento ocorrido.
Errada, porque trata a entrevista como instrumento de inquirição e produção de prova, algo mais próximo do campo jurídico do que da abordagem proposta.
Gabarito: B
A entrevista psicológica pode ser conduzida por diferentes objetivos e estilos, e a questão traz a lógica da cartografia de Deleuze e Guattari, muito usada em abordagens críticas e na analítica institucional. Em vez de tratar a fala do entrevistado como algo fixo, fechado e pronto para ser enquadrado em categorias rígidas, essa perspectiva valoriza o processo da conversa, os deslocamentos, as contradições e as variações que surgem no encontro. A ideia central é simples: a entrevista não serve só para “tirar dados” como se a pessoa fosse uma planilha. Ela também produz sentido no próprio ato de falar, abrindo espaço para aquilo que escapa às explicações totalizantes. Por isso, o foco está na experiência que se constrói na fala, nas linhas de fuga e nas mudanças de rumo que revelam novos modos de compreender a situação. É exatamente por isso que o gabarito é a letra B. Ela descreve uma entrevista que prioriza a experiência produzida na fala e mantém abertura para variações, sem tentar fechar o sujeito em uma leitura única e definitiva. Isso combina com a noção de cartografia como mapa em movimento, e não como retrato parado da realidade. As outras alternativas puxam para modelos mais fechados: coleta de dados pré-definidos, análise linguística estrita, correspondência fiel com o mundo ou produção de prova. Tudo isso pode aparecer em outros contextos, mas não combina com a lógica cartográfica que a questão pediu.