As questões de gênero atravessam boa parte dos conflitos interpessoais que o(a) psicólogo(a) enfrenta no campo jurídico. Para tanto, as contribuições teóricas de Judith Butler são fundamentais. Segundo a autora o gênero:
- A)articula-se a um modelo de produção capitalista marcado pela divisão e exploração do proletariado pela classe burguesa;
Errada, porque descreve a crítica marxista de classe social e produção capitalista, não a teoria de gênero de Judith Butler.
- B)corresponde a identidades fixas e imutáveis que dividem os lados masculino e feminino de forma hierárquica e assimétrica;
Errada, porque Butler rejeita a ideia de identidades fixas e imutáveis; para ela, gênero é performativo e socialmente produzido.
- C)é um dos meios utilizados para reprimir e encobrir desejos que fogem à norma social e, por isso, são recalcados no inconsciente;
Errada, porque essa explicação remete à psicanálise freudiana, com repressão e recalque, e não ao pensamento de Butler.
- D)é fruto de convenções sociais definidas a partir da anatomia sexual, servindo de pretexto para atribuições delegadas preferencialmente a pessoas cisgênero;
Errada, porque reduz gênero à anatomia sexual e a papéis delegados a cisgêneros, enquanto Butler critica justamente a naturalização e a fixidez dessas categorias.
- E)opera dentro de uma matriz de inteligibilidade pela qual até mesmo o sexo supostamente natural é estabelecido como “pré-discursivo”.
Certa, porque expressa a noção de matriz de inteligibilidade e a crítica butleriana ao sexo como algo supostamente natural e pré-discursivo.
Gabarito: E
Judith Butler critica a ideia de que o gênero seja algo natural, fixo e dado de uma vez por todas. Para ela, gênero não é uma essência interna da pessoa, mas um efeito produzido e repetido por normas sociais, discursos e práticas culturais. Em outras palavras: o que parece "natural" muitas vezes já foi moldado socialmente antes mesmo de a gente perceber. A chave aqui é a noção de matriz de inteligibilidade, isto é, um conjunto de normas que define quais corpos, identidades e desejos fazem sentido socialmente. Dentro dessa matriz, sexo e gênero não aparecem como fatos brutos e independentes, porque até o sexo, que muita gente trata como puramente biológico, é lido e organizado por discursos sociais. Por isso Butler diz que o sexo é também estabelecido como "pré-discursivo", isto é, como se existisse antes da linguagem, quando na verdade já está atravessado por ela. Na prática, isso ajuda muito a Psicologia Jurídica, porque conflitos envolvendo família, guarda, violência, nome social, identidade de gênero e discriminação costumam revelar justamente essas normas que tentam encaixar pessoas em modelos rígidos. Butler desmonta essa lógica e mostra que o binarismo homem/mulher não é uma verdade neutra da natureza, mas uma construção regulada socialmente. Por isso a alternativa E está correta: ela traduz bem a ideia butleriana de que o gênero funciona dentro de uma matriz de inteligibilidade e que até o sexo dito "natural" é construído como se fosse pré-discursivo. É a linguagem da autora, sem maquiagem.